Tratado sobre o simbolismo por trás da menor máscara do mundo – um nariz de palhaço -, “I Clowns” (1970), de Federico Fellini (1920-1993), é a referência que primeiro salta aos olhos ao longo dos 86 minutos do documentário “O Circo Voltou”, uma das mais exuberantes aulas de montagem do Festival do Rio 2021. Com exibição nesta segunda, às 21h30 (0h30 de Lisboa) no Cinépolis Lagoon, a longa-metragem marca a volta de Paulo Caldas (“O País do Desejo”) ao planisfério cinéfilo, quase quatro anos depois de sua imersão na lusofonia com “Saudade”, de 2017. O seu novo filme, felliniano até a alma, narra a trajetória de um dos maiores mestres circenses do Brasil, Zé Wilson, em regresso à sua cidade natal, no sertão de Alagoas, quando, junto da sua trupe, revisita a própria história e a história do picadeiro no Brasil.
Caldas é um diretor autor cuja linha identitária para por uma radiografia de afetos que circundam práticas sociais ameaçadas pelo Tempo, pela violência, pelo descaso do Estado, pelo desuso. Em 1996, ele e Lírio Ferreira fizeram a seminal ficção “Baile Perfumado”, que revisitou o legado do banditismo social num país tomado por latifundiários. Essa fita dos anos 1990, que redesenhou a forma de se produzir em terras pernambucanas, é abordada em outra atração da maratona cinéfila carioca: “Manguebit”, de Jura Capela, no qual Caldas é entrevistado.
Na conversa a seguir, o cineasta fala ao C7 sobre sua maneira de lapidar retratos sociológicos.
O que o circo guarda de revolucionário num período histórico onde todo o passado parece estar se desmantelando em meio a novas relações mediáticas?
Acho que os pequenos circos que circulam nos lugares mais profundos do Brasil, onde as relações mediáticas quase não alcançam os moradores, são revolucionários, desde o momento em que produzem arte popular, sobrevivendo unicamente dessa arte, numa relação intensa com o seu público.
O teu cinema olha para o circo, nesse seu novo documentário, como olhou para a palavra “saudade” numa longa-metragem de 2017; como olhou para poetas de periferia no filme “O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas” (2000); e como olhou para a prostituição em “Deserto Feliz” (2007). É um mesmo olhar, com um certo sentimento de desmantelo, como se algo durasse no meio de um desmanche das relações sociais. O quanto essa marca autoral se reporta à tradição do cinema nordestino à qual que se liga? O quanto disso vem da sua própria relação como o real?
Acho que acabo refletindo o desmantelo das nossas relações sociais, e os desencontros provocados por elas, na reação das personagens a esse desmanche. Por outro lado, cada vez mais, também, o meu cinema se volta pra uma relação com o real, buscando o que está por trás desse real, algo pessoal, como é o caso de “O Circo Voltou”. Esse é um filme que eu, definitivamente, não sei definir como documentário ou ficção.
O filme “Manguebit” – documentário de Jura Capela, exibido no Festival do Rio no fim de semana – mostra a sua relevância para a efervescência cultural do movimento Mangue Beat, que uniu música, artes plásticas e cinema, a partir de uma reflexão da periferia do estado de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Mas o quanto ainda existe daquela cultura no seu olhar?
Permanece a instigação de buscar a renovação e a revolução, ainda que cada vez isso fique mais difícil dentro de um modelo de produção que tende muito ao comercial. Acredito que filmes realizados há vinte anos, ou mais, considerados marcantes dentro do cinema brasileiro, talvez nunca acontecessem se tivessem que ser viabilizados dentro das regras do mercado cinematográfico atual. Isso é uma coisa muito triste: a quase ausência de investimento em filmes de alto risco.

