Panah Panahi: filho de peixe sabe nadar

"Hit The Road" estreou Cannes e foi exibido em Roterdão

(Fotos: Divulgação)

Uma das maiores descobertas do Festival de Cannes este ano, com passagem na Rep. Checa no famoso Festival de Karlovy Vary (20-28 agosto) e Roterdão (26/01-06/02), foi “Hit The Road”, filme estreia de Panah Panahi, filho do aclamado Jafar Panahi.

Assistente de realização nos último anos do seu próprio pai, que continua interdito de filmar no Irão após uma decisão judicial, Panah estreou-se com um road movie pelas estradas iranianas a caminho da fronteira com a Turquia para mostrar uma família prestes a desfazer-se devido à imigração do filho mais velho. “Não sou uma pessoa de géneros, não conheço propriamente os seus códigos, mas era muito importante para mim do ponto de vista cinematográfico que as regras e códigos que respeito façam sentido para mim e para o meu filme“, disse-nos Panah Panahi em Cannes – em plena praia da Quinzena dos Realizadores, onde o seu filme teve estreia mundial – sobre a escolha de algo tão emblemático no cinema como os road movies para iniciar o seu percurso nas longas-metragens. Um género onde tradicionalmente se retratam viagens no interior de um território e se exploram tensões e questões de identidade pessoais e coletivas em relação a um estado ou período histórico).

Inventivo, divertido, visualmente equilibrado e narrativamente energético, “Hit The Road” tem no filho mais novo do casal o pólo dinamizador de toda a ação, que se move entre as peripécias encontradas na viagem e os mais variados diálogos. Com isto, Panah consegue executar um dos filmes mais humanos do ano, onde é através de elementos particulares – como uma mulher de cabelos à solta, ou a escolha de músicas criadas antes da revolução islâmica – que surgem algumas críticas ao regime iraniano atual: “As músicas do meu filme são extremamente populares no Irão e são todas de antes da revolução islâmica. Essa música traz uma nostalgia daqueles tempos. Desde então a nossa cultura tem sido muito controlada por parte das autoridades, as quais impuseram o seu próprio gosto, as suas próprias referências no cinema, na música, em toda a expressão artística. Por isso mesmo não há nenhuma música no filme que tenha sido feita depois da revolução. Queria com aquela nostalgia mostrar uma família num último momento juntos, onde cada um deles vai criar um momento de nostalgia”.

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Filho de um dos cineastas mais importantes do Irão, Panah não esconde que o legado do pai cria-lhe uma pressão constante desde sempre, mas acredita que conseguirá impor a sua própria voz no cinema contemporâneo: “A pressão seguiu-me a vida toda e sempre tentei pensar em como criar uma identidade própria, independente do facto de ser filho de quem sou. Depois de começar a trabalhar nas minhas coisas tenho a certeza da sinceridade das minhas imagens, que são muito pessoais, muito minhas. Evidentemente que as influências dele encontram-se no meu cinema e assumo-as (…) Não sei se posso falar de aprendizagem com ele, mas o que é evidente é que existem muitas coisas no trabalho do meu pai que me fazem questionar se as consigo fazer. Não é de todo uma espécie de transmissão verbal, em que falamos das coisas, mas por observação nos seus sets de filmagens, onde frequentemente fico muito impressionado com ele. Veja-se a sua gestão de problemas. Ele é extremamente paciente e isso impressiona-me muito e ensina-me bastante sem serem necessárias palavras.” 

Falando especificamente deste guião, naturalmente ele mostrou ao pai o que escreveu a determinado ponto, mas seguiu o seu próprio rumo criativo, tendo particularmente efetuado muito trabalho de campo junto à fronteira da Turquia para entender os mecanismos de passagem (ilegal) de um país para o outro: “Fiz uma pesquisa muito aprofundada sobre isso com a ajuda de amigos que me falaram sobre isso. Articulei isso com as minhas exigências cinematográficas, mantendo-me fiel ao percurso de uma família. Cada uma das etapas de passagem é baseada numa investigação muito precisa sobre o tema“.

Hit The Road” tem distribuição comercial no nosso país assegurada.

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