“Eminente homem que radiou amor, encanto, esperança, alegria e generosidade. Foi amigo, carinhoso e dedicado dos pobres e dos poetas. A sua mão guiou. O seu coração perdoou. A sua boca ensinou. Honrou a medicina portuguesa e todos os que nele procuraram cura para os seus males.”
Estas palavras de Guerra Junqueiro foram dedicadas a José Tomás de Sousa Martins, médico e professor catedrático da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, antecessora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Uma das figuras-mor do seu tempo (1843-1897), atraia grande parte da população mais rica de Lisboa e arredores, mas na maioria dos casos praticava medicina gratuitamente, sobretudo no combate à tuberculose junto à classe mais pobre.
O seu trabalho foi honrado com uma estátua nos Campos Mártires da Pátria, em Lisboa, mesmo em frente à Faculdade de Ciências Médicas, um espaço que se tornou lugar de romaria, de pedidos e pagamento de promessas. Foi a partir dessa estátua e das gentes que a visitam que Justine Lemahieu, conhecida pela montagem de trabalhos da cineasta Nathalie Mansoux (Deportado; Via de Acesso), embarcou num documentário sobre a figura deste “Santo Laico”, um homem da ciência que se tornou um objeto de culto e que nunca teve nada a ver com o catolicismo.
Estivemos a conversa com Justine Lemahieu, que nos explicou alguns detalhes sobre a construção deste Sousa Martins, documentário que chega esta semana aos cinemas.
Os seus trabalhos anteriores foram sobre temas associados a gerações de migrantes/imigrantes e das discriminações (Deportado; Via de Acesso). Por tal, o que a levou até Sousa Martins, ou seja, como nasceu a ideia deste projeto diferente dos seus anteriores?
O facto de ser moradora da Colina de Santana é uma das razões mais concretas à origem do projeto. Passo em frente à estátua do Sousa Martins todos os dias e as manifestações de fé, ainda hoje muito vivas em frente à faculdade de medicina, chamaram-me a atenção. Comecei a interessar-me pelas origens desse culto e pela história do meu bairro, fortemente ligado à história da medicina. Fui lendo, observando e ouvindo as testemunhas das pessoas. Ao longo dos anos, fiquei cada vez mais fascinada pela personagem do Sousa Martins e pela riqueza e grande poesia dos movimentos existentes em torno dele, também pelas contradições desse culto que se situa num ponto de cruzamento aparentemente impossível entre a ciência e a fé.
É um espaço público extremamente habitado pelos moradores, trabalhadores, estudantes, devotos que aí passam, um espaço público livre que se tornou um espaço sagrado. O facto desse espaço sagrado popular resistir no centro da cidade é para mim precioso e muito interessante.
Talvez aí exista um primeiro ponto de ligação com os trabalhos anteriores. Tal como as longas metragens de Nathalie Mansoux, que editei anteriormente, este filme trata de resistência. Resistência de um espaço de vivença popular no centro da cidade, resistência de pessoas, principalmente oriundas de classes populares, que se organizam frente à adversidade e ao sofrimento. É isso que, no fundo, me interessa desde há vários anos, perceber como as pessoas, apesar das dificuldades e com os seus próprios recursos, conseguem lidar com o sofrimento.
Se o filme não trata diretamente o tema das migrações, o culto em torno do Sousa Martins é um culto mestiço, resultado de um forte sincretismo religioso e está, portanto, simbolicamente e fortemente carregado pela história da colonização e das migrações, antigas ou presentes.
Não quis fazer um filme militante, ou politicamente tão explicito como os filmes que editei, mas o meu trabalho não deixa de se inscrever num questionamento politico sobre a cidade, as migrações, as lutas do quotidiano.
Durante estes anos vividos em Lisboa, tive também a oportunidade de conhecer e colaborar enquanto videasta para vários investigadores de antropologia (nomeadamente num campo que cruza a antropologia da saúde e antropologia da religião). O contato com estes universitários despertou o meu interesse pelas questões da crença e as suas complexas relações com o corpo e a cura. Acompanhando antropólogos nos seus campos de pesquisa, cruzei-me várias vezes com a figura do Sousa Martins.
Todas essas circunstâncias e encontros motivaram-me para realizar o filme.
E como foi o financiamento desta obra?
O filme recebeu financiamento de França e, a seguir, o apoio financeiro do ICA.
Houve um grande trabalho realizado pela diretora de produção, Rita Gonzalez, para conseguir esses apoios, tal como vários apoios logísticos de empresas para facilitar a rodagem.
Anteriormente trabalhou com a Nathalie Mansoux, nos dois filmes já citados. Houve algo que trouxe dela (uma inspiração, métodos de trabalho) para a realização deste filme?
Ganhei grande parte da minha experiência enquanto montadora graças ao trabalho de edição com Nathalie Mansoux. Foi uma aprendizagem constante.
Como se processou a investigação em torno de Sousa Martins? Encontrou muita documentação sobre ele?
A fase de pesquisa foi importante e cumprida (cerca de um ano ) e prolongou-se durante toda a rodagem e montagem (mais 2 anos), à medida que ia construindo o filme.
Procurei documentar-me o mais possível. Li a obra do Dr. Sousa Martins, assim como as obras e artigos escritos sobre ele, desde textos do século XIX e inicio do século XX, como os compilados no livro ‘In memoriam’, que encontrei na biblioteca do hospital São José e dos quais utilizei excertos no filme, até trabalhos mais recentes de investigação em ciências sociais.
É importante salientar que grande parte da minha pesquisa foi inspirada e guiada pelo trabalho do sociólogo José Machado Pais e o seu livro ‘Sousa Martins e suas memórias sociais’. Essa foi a base da minha pesquisa. Entrevistei também Sara Repolho, autora do livro ‘Sousa Martins, Ciência e Espiritualismo’.
Além desses textos, também investiguei nos arquivos do Museu de Alhandra, onde li vários cadernos que guardam centenas de cartas curtas e recados destinados ao Doutor Sousa Martins. Esses textos, dos quais uso também excertos no filme, deram-me a ideia de escrever uma voz off em forma de carta ao Sousa Martins, tratando-o por tu.
Outra parte da investigação muito importante consistiu em ir ao encontro das pessoas, em volta da estátua em Lisboa, mas também em Alhandra, em vários sítios de culto ou/e de cura, e também indo à casa das pessoas. Nestes sítios ouvi, observei e gravei histórias, poucas vezes com câmara, muitas vezes só com pequeno gravador de som. Neste trabalho de pesquisa, fui acompanha por Teresa Costa, antropóloga, cujo o olhar e a experiência de campo foram muito importantes.
Quando via aquela estátua nos Campos Mártires da Pátria, alguma vez imaginou que o culto em relação a Sousa Martins se estendia além fronteiras, neste caso até Andaluzia (naquele que considero o momento mais “estranho” e curioso deste documentário)?
Já sabia, graças à colaboração anterior com o grupo de investigação em antropologia da saúde, que o culto ao Sousa Martins era extremamente rico e complexo e atravessava, sob várias formas, várias religiões e sítios geográficos muito diversos. Por exemplo, a figura do Dr. Sousa Martins é uma figura presente no Brasil, nos cultos afro-brasileiros ligados ao espiritismo. Está presente nomeadamente na religião Umbanda. Esses espaços de culto espíritas também existem na região de Lisboa e assisti a vários rituais de cura onde o Sousa Martins é invocado. Portanto, mesmo se não estivesse à espera de encontrar uma ‘Igreja Sousa Martins’ em Espanha, não estranhei de ser contactada por um grupo espirita fora das fronteiras de Portugal.
Um dos elementos curiosos do Sousa Martins é que ele era um homem da ciência, mas que se tornou “beatificado”, motivo de culto religioso, por um verdadeiro grupo de seguidores. Como abordou esse contrassenso e o transferiu para o filme?
Talvez não seja um contrassenso, mas uma contradição aparente que revela a porosidade das categorias em que o nosso pensamento precisa encaixar as representações que nos envolvem: de um lado a ciência, do outro a fé; de um lado a verdade histórica, do outro lado o imaginário popular. Na realidade essas fronteiras não existem assim tão claramente. As memórias misturam-se e vão-se alimentando. O mito e o imaginário religioso atravessam a construção da figura oficial do Sousa Martins enquanto cientista, tal como a biografia do médico, a sua personalidade generosa, o seu carácter progressista e ateu alimentaram um sentimento de devoção e de fé, e permitiram libertar e fazer surgir expressões de religiosidade livres, vindo de populações que, pelas suas ideias políticas, pela sua história pessoal ou pelas suas origens sociais, não se reconheciam ou não se sentiam integradas dentro da Igreja Católica.
Este encontro à primeira vista improvável entre a figura religiosa do Santo e a figura ateia do médico faz do culto ao Sousa Martins um rico e complexo terreno de pesquisa e questionamento. No filme não me interessou opor as figuras do Santo e do Médico, mas ao contrário dar pistas para permitir ao espectador questionar-se sobre a porosidade das categorias convencionalmente erigidas.
Procurei, por exemplo, o cruzamento dos imaginários entre Ciência e Fé nas palavras pronunciadas pelas pessoas e nos textos que escolhi montar.
Cura, crença e capitalismo. O fenómeno Sousa Martins – embora em muito menor escala e sem existir “qualquer aparição” – não é muito diferente de Fátima, Lourdes, etc. Como foi lidar com esses três temas e como procurou balancear a abordagem a eles, especialmente quando entrou no campo das “curadoras”?
O dinheiro e as relações económicas estão presentes em todo o lado e condicionam as nossas vidas. Estão presentes nas trocas relacionadas com a saúde, na medicina e nos rituais de cura, tal como em qualquer outro setor. Quis mostrar esta dimensão económica das relações no filme, mas não representa para mim uma manifestação particularmente exacerbada do capitalismo que nos rodeia.
Iremos encontrar o DVD do filme à venda nas lojas religiosas que vemos na história?
Não existe para já edição DVD do filme.
Presumo que algumas das pessoas que surgem no documentário já viram o filme. Que acharam eles do documentário?
O filme foi bem recebido pelas pessoas que filmámos e que foram vê-lo à Cinemateca. Só uma parte pode assistir a essa sessão e gostava poder mostrá-lo no futuro em Alhandra.
Tem algum projeto agendado para o futuro, depois deste Sousa Martins? Vai continuar na realização e no género documental?
Sim tenho vários projetos em mente e quero continuar a realizar documentários.

