Oroslan: um filme de fantasma sobre as cicatrizes da Eslovénia

(Fotos: Divulgação)

Com o encerramento do Festival de Locarno, no último sábado, com a vitória portuguesa de Pedro Costa e a sua longa metragem Vitalina Varela, pequenas produções que despontaram para os holofotes dos media nas seções paralelas do festival suíço começam a desbravar espaço até o circuito exibidor e até o sistema nervoso das demais mostras da Europa e das Américas.

É o caso do drama esloveno Oroslan, um “filme de fantasma” de 72 minutos, dirigido por Matjaž Ivanišin. Numa secura exasperante, somada a uma deslumbrante composição visual, a produção acompanha o impacto da morte de um sujeito chamado Oroslan na vida dos moradores do vilarejo onde ele morava. A morte dele traz à tona uma série de verdades capazes de atomizar as relações locais. Na entrevista a seguir, Ivanišin fala sobre a busca de uma identidade a partir de um local e dá ao C7nema uma ideia de como é filmar na Eslovénia. 

Qual e como é a Europa que produziu um filme tão doloroso como “Oroslan”? E qual é a Europa que acolheu a estreia do seu filme, nos ecrãs de Locarno?

Existem consideráveis diferenças sociais e económicas por aqui, mas as personagens que estão no centro de Oroslan podem tanto estar num vilarejo distante ou numa cidade de maior visibilidade como Locarno, onde a produção estreou. O meio tem um impacto grande sobre as pessoas… a ponto de definir quem são. O nosso filme é ligado de modo intersticial ao local que retrata e às pessoas que ali vivem. Essa é a maneira a partir da qual o cinema pode expressar de modo universal questões que nos ligam globalmente. Se fosse ambientado num lugar como Locarno, o filme seria outro, ainda que a dor nele retratada e a sua mirada poética pudessem continuar as mesmas. As minhas inquietações são percetíveis e não posso escondê-las sob a câmara.  

Qual é o conceito de comunidade e de solidão que alimenta a dramaturgia de “Oroslan”?

Não vemos Oroslan no filme, mas a sua morte e seu passado causam impacto nas histórias das pessoas que moravam em torno dele. A morte interfere nas reações dessas pessoas. A autossuficiência de Oroslan, no seu modo de viver na relação com os demais, é refletida na imagem que aquela sociedade faz de si. É como se Oroslan continuasse a viver depois de sua morte, enquanto ele resistir na memória das pessoas com quem conviveu. Quando for esquecido, ele vai estar morto de facto. 

Qual foi a conceção de luz na fotografia de Gregor Božič?

O trabalho de fotografia buscou capturar os sentimentos que os locais como os retratados no filme evocam. A paisagem é a personagem central do filme, portanto a ideia era retratá-lo com o máximo de luz natural possível.

Existe uma estética eslovena específica?

Não vejo nada específico na identidade dos realizadores da Eslovénia, ainda que tenhamos um número considerável de cineastas autorais. Talvez um olhar de fora daqui possa notar um padrão. Só temos dois milhões de habitantes e não investimos muito em cinema. Se analisarmos as atuais condições do país, não há mesmo como se falar numa indústria local, mas há algo emergindo. 

Link curto do artigo: https://c7nema.net/e675

Últimas