Lynchiano, «Fim de Festa» explora o lado melancólico do carnaval pernambucano

(Fotos: Divulgação)

Entre as poucas estreias brasileiras de 2020, Fim de Festa, de Hilton Lacerda, lançado na quinta-feira no seu país, é um dos títulos que mais inquieta os espectadores.

Filmada no Recife, terra do culto Aquarius (2016), a longa-metragem levou para seu estado, Pernambuco, o troféu Redentor de melhor filme e o de melhor argumento dados pelo Festival do Rio 2019, em dezembro, num gesto do júri presidido pela produtora Mariza Leão (de sucessos como De Pernas pro Ar) capaz de coroar as narrativas de género, as afirmações LGBTQs e a resistência autoral.

Conhecido como realizador por Tatuagem (2013), Lacerda foi o vencedor do festival graças à solidez narrativa de Fim de Festa na construção de uma radiografia da ressaca pós Carnaval, tendo como foco uma investigação do policial federal Breno Wanderley (Irandhir Santos). O trabalho dele para decifrar os segredos por trás de um crime (uma turista foi assassinada em plena folia) se estabelece em meio de uma crónicas de prazeres e vivências.

Entre os bons filmes da competição nacional de ficções do Festival do Rio, o trabalho de Lacerda se impõe pela escrita aguda. Uma escrita com ecos de Lynch não na sua mirada mais surrealista, mas pela sua estranheza na crónica de costumes de diferentes classes sociais, que vão entrando numa (subtil) colisão. O cineasta (um aclamado argumentista, com célebres trabalhos como Amarelo Manga no currículo) aposta em um tom dionisíaco na celebração do sexo como instância de liberdade e a perceção de que a lealdade tem uma dimensão trágica.

Há algo de leal entre os primos Breninho (Gustavo Patriota e Penha [Amanda Beça, de precisa ironia] e o casal baiano Indira [Safira Moreira, capaz de sarcasmos pontuais] e Ângelo [Leandro Villa, um achado, em sua atuação reflexiva]). O segundo é focado em Emma (Maria Barreira), francesa morta “à paulada“. Eles vivem num prazer a quatro, numa cumplicidade exponenciada pela leveza e pelo gozo. Breninho tem lá suas questões (silentes) com o pai, mas é leal a ele, ajudando-o na sua investigação do crime contra a francesa.

Hilton Lacerda l Foto.: Victor Jucá

Vemos o vértice desse quadrilátero recifense de incongruências morais sob a ótica de um casal de visitantes: ela, vivida por Suzy Lopes, é brasileira; ele é francês, e seu intérprete é Jean Thomas Bernardini, dono da distribuidora Imovision. O filho dela (Ariclenes Barroso) é o viúvo da estrangeira morta. Mas há algo de podre nesse reino onde Hamlet não tem pais para vingar. Príncipe dessa Dinamarca mestiça, Breno Wanderley tem que driblar convenções legais e advogados de retórica torta para saber o que aconteceu. Nessa jornada, o policial vai rever que é, o que fez e o lugar onde vive, com toda a sua riqueza humana, pontuada por um carnaval que passou, construído na fotografia de Ivo Lopes Araújo sem saturações.

Na entrevista a seguir, Lacerda desfia um rosário de reflexões políticas sobre resiliência da arte e do desejo.

Qual é o Recife desse carnaval pós, trans e sem rótulos que você decidiu investigar e o que o carnaval representa como identidade para quem é pernambucano?

O carnaval, para a cidade do Recife, assim como para algumas cidades brasileiras, é uma espécie de calendário de princípios. Sabemos que isso pode ser colocado para o pais, mas em cidades de tradição carnavalesca não são apenas os dias de Rei Momo (símbolo da folia brasileira) que importam, mas todas as festividades que vem junto com o verão. Mas aprofundando a questão ainda mais um pouco, a tradição, muito antiga, emprestam ao carnaval recifense um contorno muito próprio. A partir de um recorte muito específico, de fragmento de tempo e de espaço, o Fim de Festa tenta criar, metaforicamente, esse espaço de maneira a estendê-lo a uma possível leitura de um país ressacado pelas promessas que chegaram a ser avistadas.

Um Brasil afundado nas suas próprias contradições, onde tudo aquilo que foi desenhado para tentar decifrá-lo, se conforma a partir de uma perigosa e violenta onda conservadora. De certa maneira, a escolha desse carnaval melancólico – tão perto e tão longe – vem recheado dessa desconcertante angustia tropical que tentamos colocar no filme, seja na sua superfície ou nas suas profundidades. Um carnaval cheio de camadas para ser decifrado, assim como esse Fim de Festa.

Qual e como é o universo policial que você optou por explorar em relação a um certo traço heroico ou anti-heroico desse tipo de narrativa… de investigação?

Interessa-me, não apenas no Fim de Festa, mas em leituras que faço sobre o mundo a volta, procurar elementos que direcionem o olhar para situações e personagens improváveis. O poeta Pinto do Monteiro, quando explicou o que é ser poeta, disse que é aquele que tira de onde não tem para colocar onde não cabe. Talvez o personagem Breno esteja dentro dessa definição, mas, claro, sem o refinado confeito do poeta paraibano – estamos longe da poesia. E ele me interesse como indivíduo, nunca como corporação, uma vez que, o recorte dele, quando distanciado dos incómodos afetivos e morais que o envolvem, revela uma história de violência. Mas ele procura decifrar seu mundo a partir de outras motivações que o expliquem.

Uma conduta psicológica na busca da reconstrução – para ele não existe a possibilidade do perdão. Além disso, a própria tradição policial como género muito caro a história do cinema e da literatura, me deram lastro à imaginação para construir uma personagem que tem na sua estruturação pontos muito sensíveis para sua personificação. E tem a ver, principalmente, com a busca de corrupção de Género a partir de uma mirada muito particular (modificar/corromper/recriar géneros é um exercício muito instigante).

Que conversa Fim de Festa estabelece com Tatuagem e como você a relação desses dois filmes em relação à representação do corpo?

A relação com o Tatuagem está mais presente num desejo de construir um certa linha de tempo na leitura de bordas que gosto de fazer. Se nos atentarmos para o final do Tatuagem, quando o filme super-8 do professor Joubert é apresentado, existe uma conversa sobre o futuro com uma jornalista que o entrevista. Logo depois ficamos cientes que o filme dele é uma ficção científica de cunho filosófico: lançar um menino no futuro para ele trazer, como cicatriz, o que aconteceu lá. Bem, o Tatuagem, para mim, não nasce de um sentimento saudosista, mas de uma janela aberta no passado para falar sobre o presente (naquele momento). E ali já existia, em minhas intenções, a ideia de um pais que vive círculos de possibilidades e quedas – o eterno país do futuro. Já me tocava um incomodo muito grande sobre o direcionamento das coisas e da ocupação de espaços políticos por forças bastante conservadoras.

Nesse sentido, o Fim de Festa se coloca não como resultado direto do Tatuagem, mas como uma linha no tempo que tenta colocar algumas questões para possíveis reflexões. E falar sobre o mal estar civilizatório que presenciamos e que eu, particularmente, sinto-me tragado. Mas o corpo continua sendo a arma de provocação por excelência. O instrumento que nos coloca diante de um processo moral muito poderoso. Se no Tatuagem a linguagem do corpo provoca um sensação de liberdade, no Fim de Festa essa provocação se torna mais dolorosa. Na primeira as regras são as leis impostas por um estado que via a nudez como símbolo de corrupção. Aqui é o eco democrático quem pune as pessoas que instrumentalizam seus corpos como arma de transformação política e estética. Não é à toa que um dos casos mais relevantes no Brasil, nos últimos tempos, foi a apresentação de Wagner Schwrtz, em 2017, no MAM de SP. Uma mobilização barulhenta toma ares de censura e coloca a criação sob assédio moral. Tempos difíceis.

Que novos passos o filme dá em paralelo ao lançamento, no Brasil, e que passou você dá em sua carreira como argumentista?

O Fim de Festa agora vai tentar festivais internacionais que não exijam ineditismo no seu próprio país, e são a maioria deles. Lançamos o Fim de Festa num momento de risco, mas entendemos a urgência dele estar em cartaz. Não queríamos que o filme fosse muito rapidamente atropelado pelos dias. Com relação a meu trabalho como argumentista, continuo a fazer as coisas que estão ao meu alcance. Com alguns projetos para desenvolvimento em editais locais e uma série para finalizar. Neste momento o horizonte é bastante turbulento. Quase um não-horizonte.

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