Barravento: a rajada de Glauber Rocha regressa a Karlovy Vary 64 anos depois

(Fotos: Divulgação)

Tal como o seu nome evoca, numa referência ao universo marítimo e popular brasileiro, onde designa uma mudança súbita e violenta do vento, Barravento surge na história de Karlovy Vary como uma rajada de inovação vinda de bem longe, do Brasil, da Bahia, e do Cinema Novo.

A estreia de Glauber Rocha, premiada em Karlovy Vary em 1962, dava a conhecer ao mundo alguém que filmaria o Brasil como um campo de batalha entre a fome, a fé, o mito e a revolução, transpondo essas ideias não apenas na temática dos seus filmes, mas também para uma estética de forte olhar documental, onde primava uma energia nervosa, imperfeita e explosiva.

Numa comunidade piscatória marcada pela pobreza e pela exploração, Firmino regressa da cidade com o desejo de romper com uma lógica fatalista de domesticação. Ele não procura apenas denunciar o patrão, a miséria e a dependência, mas atacar, forte e feio, aquilo que vê como a grande prisão espiritual dos pobres: o medo, o misticismo e a crença de que tudo está escrito pelo mar, pelos orixás e pelo destino.

No filme os corpos dançam, discutem, trabalham e desejam, sempre numa forma de transe onde a tensão nunca é resolvida de forma pacífica. É certo que Glauber ainda não é o furacão de Deus e o Diabo na Terra do Sol, mas já filma contra a ordem estabelecida, a passividade humana e a beleza estética da pobreza. 

O filme regressou agora à República Checa, inserido na retrospetiva Out of the Past – KVIFF 60/80. Com ele regressou a forma febril e inquieta de Glauber ver as coisas.

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