Nada cartesiana, quase sempre nervosa, a câmara que narra “Serpent’s Path, sob a luz outonal do fotógrafo Alexis Kavyrchine, várias vezes desliza sem qualquer graciosidade ao registar lutas, fugas e discussões a ponto de ultrapassar os corpos que filma, dilatando o quadro. É um sintoma de uma aspereza incomum à elegância com que Kiyoshi Kurosawa habitualmente se exercita pelas vias do suspense, sobretudo quando se pensa em títulos como “Creepy”, que o levou à Berlinale, em 2016. O estilo brusco do seu novo filme – na corrida à Concha de Ouro de San Sebastián – é incomum até para o padrão classe B dos filmes de ação americanos, oxigenando uma gramática desgastada.

Há uma sequência de luta num ginásio que exemplifica à perfeição a movimentação desregrada do realizador na procura por um enquadramento, potencializada por uma coreografia de combate nada apolínea, e, por isso mesmo, livre de artifícios, realista ao extremo.

Não se tarda a suspeitar de que essa forma de enquadrar (somada a uma maneira rústica de conduzir confrontos físicos) é uma opção que se casa harmonicamente com o plot, destituído de qualquer registo dramatúrgico de redenção heroica, amargo do início ao fim. O Kiyoshi hitchcockiano de “Wife of a Spy” (Prémio de Melhor Realização em Veneza, em 2020) dá lugar aqui a uma mise-en-scène sem estilização, atenta às condições nada usuais de temperatura e pressão em que os seus personagens se encontram. Com a plena maestria do artesão que é, o cineasta japonês conduz a longa-metragem inteira assim, qual fosse uma panela de pressão prestes a explodir.

Baseado numa produção do próprio Kiyoshi, “Hebi No Michi” (1998, também chamada de “Serpent’s Path”), este novo thriller do Brian De Palma nipónico conseguiu radicalizar uma série de soluções plásticas da fita na qual se baseia, transportando o seu enredo para França. Foi Aurélien Ferencz quem adaptou o guião original para a Europa, discutindo o tráfico de crianças e o comércio de órgãos. A adaptação preservou o olhar catastrofista do guião da década de 1990, realçando a sua dose estrutural de adrenalina.

Lançado no Japão em junho, “Serpent’s Path” (ou “Le Chemin du Serpente”, como é conhecido na pátria na qual foi filmado, em 2023) conversa com três filmes de culto do início deste século: “Memento” (2000), de Christopher Nolan, “OldBoy” (2004), de Park Chan-Wook, e “Saw” (também de 2004), de James Wan. Nos três, vemos tortura e figuras enredadas numa situação de revelações bruscas a cada minuto, modificando as certezas que a plateia cria sobre o carácter dos protagonistas. É esse o caminho trilhado por Kiyoshi ao narrar o que parece ser a cruzada de vingança do repórter Albert Bacheret (Damien Bonnard, colossal em cena) contra um grupo, ora chamado de o Círculo, ora de Fundação, responsável pela morte da filha. Uma médica, Sayoko (papel da taciturna Ko Shibasaki), vai ajudá-lo a ter a sua revanche, e a entender o que aconteceu com a menina. Paralelamente, ela mantém uma conversa online com o marido, em Tóquio, deixando indícios de que sua união chegou ao fim. O interesse da doutora Sayoko no luto de Bacheret nunca parece ser apenas por empatia. É inegável que há algo mais na sua participação (muitas vezes violenta) no troco que ele dá nos (supostos) culpados pelo assassínio da sua cria, vividos por Mathieu Amalric, Grégoire Colin e (um mortífero) Slimane Dazi.

O mistério em volta de Sayoko cresce conforme se desfolham camadas apodrecidas do passado de Bacheret. Pouco a pouco, a monstruosidade da trama entra em metástase e já não há mais como saber quem está de que lado, numa demolição de certezas e de aparências que faz parte do ritual autoral de Kiyoshi diante das matrizes policiais com as quais trabalha. O heroísmo no seu cinema é um resquício moral de uma tradição épica (sobretudo entre os seus conterrâneos) que ele depreda sem pena. Na porção da sua filmografia dedicação a géneros, o que mais interessa é o Mal, em todas as formas que tem de nos desumanizar. E não se trata do Mal místico, sobrenatural, e, sim, das torpezas de homens e mulheres.

Esse novo “Serpent’s Path” demonstra não apenas a fase de apogeu em que Kiyoshi se encontra, vide o recente “Cloud” (exibido no Festival de Veneza), como também a habilidade para se expressar em outras línguas e outras culturas, refazendo um caminho (mal) esboçado antes em “Le Secret De La Chambre Noire” (2016). É um estudo sobre a perversidade e sobre a estratégia que surpreende nos seus mínimos detalhes.  

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
serpents-path-anatomia-rustica-do-mal“Serpent’s Path” demonstra não apenas a fase de apogeu em que Kiyoshi se encontra, vide o recente “Cloud" (exibido no Festival de Veneza), como também a habilidade para se expressar em outras línguas e outras culturas, refazendo um caminho (mal) esboçado antes em “Le Secret De La Chambre Noire” (2016)