Maria Clara Escobar é uma cineasta brasileira multipremiada que faz um cinema inventivo e provocador desde o espetacular Os dias com ele, 2014, ou talvez até antes (já nas suas curta-metragens), mas eu conheço o seu modo de fazer filmes a partir daí. E ela sabe imprimir poesia nas imagens em movimento.
Enquanto escorriam no écran as imagens do seu recente filme Explode São Paulo, Gil, de 2025, perguntava-me o que é verdade e o que é invenção neste filme, o que é realidade, o que é ficção? Maria Clara embaralha tudo isto.
No filme a realizadora dirige Gil (Gildeane Leonina de Carvalho) e partilha a escrita do filme com ela, criando uma personagem marcante. Gil é convidada pela diretora para explodir SP, mas Maria Clara também explode algo: o limite da criação cinematográfica. Ela é uma cineasta que arrisca, experimenta, é criadora, sensível, instigante, ética e política, mistura o pessoal e o coletivo, colocando-se no filme contrapondo a sua realidade com aquela da protagonista com quem dialoga.
Explode São Paulo, Gil regista e amplia o cotidiano da empregada doméstica Gil, explora a temática do trabalho precário, as relações de amizade e de poder entre classes sociais. Gil, no plano da realidade e também ficcional, apresenta-se como uma mulher periférica e lesbiana, que tem epilepsia e está deprimida, mas a sua performance na narrativa construída por Maria Clara vai se metamorfoseando e carrega imensa força, envolvendo o espectador na desafiante e incomum/invisível história desta personagem. Maria Clara desloca o olhar habitual sobre a mulher periférica e doméstica.
A realizadora e a câmara acompanham e produzem um encontro poderoso com uma mulher do interior do Estado de Goiás, região Centro-Oeste do Brasil, mulher que se mudou para São Paulo aos 20 anos na tentativa de realizar o sonho de ser cantora. Pelo menos no filme, Gil realiza o seu sonho e faz-nos crer que apesar da dureza do mundo real e dos dilemas existenciais, em especial, de mulheres migrantes e periféricas, vale a pena lutar pelo que se deseja.
Gil por anos limitou-se a ser empregada doméstica contra a sua vontade e por necessidade de sobrevivência em São Paulo, mas aos 47 anos rompe barreiras e finalmente ousa se tornar a pessoa que há quase 5 décadas desejava ser, tornando-se cantora e artista, algo pouco comum numa sociedade que estigmatiza as mulheres domésticas. Além disso, Gil liberta-se das amarras identitárias que ela no início do filme havia criado para si. Maria Clara, por sua vez, provoca e apoia a sua desconstrução.
Mas como se chega a ser o que se é?
Muitas vezes pagando um preço caro por isso, enfrentando a passagem do tempo e a precariedade da vida na periferia de SP para pessoas migrantes do interior do Brasil, que vão em busca de melhores condições de vida. Ou, como disse Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é”.
Explode São Paulo, Gil foi rodado de 2015 a 2017, em 2021 e 2023, produzido pela brasileira Filmes de Abril, com coprodução das portuguesas Terratreme e Ponta de Lança e distribuído pela Vitrine Filmes/BR. Estreou no DocLisboa 2025, festival em que recebeu a Menção Honrosa do Júri da Sociedade Portuguesa de Autores e o Prémio Escola/”Prémio ETIC’’ de Melhor Filme da Competição Portuguesa, e recebeu mais prémios em outros festivais de cinema fora de Portugal, inclusive de Melhor Direção e de Melhor Atuação para Gil no 14º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. Está nas salas de cinema de Portugal desde o dia 12 de março de 2026. UM FILME A NÃO PERDER!














