Se algumas das ditaduras sul-americanas do século XX, como as do Brasil, Chile, Argentina e Uruguai, têm encontrado ao longo dos tempos espaço para serem analisadas e destrinchadas, via ficção ou documentário, no mundo do cinema que chega em particular aos festivais por esse mundo fora, outras experiências, como a boliviana e paraguaia, têm tido mais dificuldade em chegar até ao grande público para narrar as suas especificidades.
“Bajo las banderas, el sol” (Under the Flags, the Sun), documentário de Juanjo Pereira, que estreou na Panorama Dokumente da Berlinale este ano, é uma exceção num enorme vazio audiovisual, em grande parte pelo facto da destruição do arquivo cinematográfico nacional do país por parte dos aliados de Alfredo Stroessner, que foi deposto em 1989.
Nunca desistindo de vasculhar e “escavar” arquivos – um pouco por todo o mundo – que permitissem reconstruir o corpo da ditadura paraguaia, que durou cerca de 35 anos, Juanjo Pereira reuniu imagens, incluindo cenas de cinejornais e filmes de propaganda estatal, detalhando os meandros de uma ditadura iniciada ainda na década de 1950, a qual contou – como é apanágio – com o apoio de uns EUA em pânico com o crescimento das ideias marxistas por todo o planeta.
A verdade é que foi a ditadura paraguaia que serviu de ponto de partida para movimentações em vários países da região, com os anos 60 a trazerem mudanças conservadoras e ditaduras militares no Brasil, Bolívia, Peru e Argentina, e os 70 a acrescentarem o Chile, o Uruguai e novamente a Argentina, formando um “six pack” com o patrocínio do sempre hipócrita, na suposta defesa da liberdade, Tio Sam.
Não se preocupando apenas em somar imagens num um jogo cronológico dos eventos, mas entrando com mais profundidade nos terrenos da génese e construção de uma ditadura, enquanto usando artimanhas cinematográficas que nos emaranham no sentimento geopolítico e social deste tempos idos, Juanjo Pereira toca em questões instigantes como a famosa Operação Condor (uma campanha de repressão política e terror de Estado levada a cabo pelas ditaduras de direita do Cone Sul, com o apoio dos Estados Unidos); além da forma como Strasser protegeu o famoso (pelas piores razões) Josef Mengele, um nazi que encontrou no país um refúgio; sem esquecer o sequestro da ativista marxista Margarita Bàez e a abertura da gigantesca barragem de Itaipú, que prometia energia sem limites para todos, mas que beneficia particularmente uma classe social a se destacar da multidão.
E vemos também Strasser, de ascendência alemã, a visitar o próprio território Bávaro, acrescentando o cineasta com isso camadas e camadas de detalhes que particularizam uma experiência ditatorial que se estima ter feito mais de 20 mil vítimas.
Nunca usando uma narração de pendor didático que acompanhe as imagens, Juanjo Pereira encaminha o público a observar e a julgar por si mesmo os tempos ditatoriais, relembrando que o partido que validou Strassner está novamente no poder, numa espécie de alerta contra o esquecimento. É que a democracia não é um dado adquirido, mas um cenário pelo qual se luta no dia a dia com todas as forças. E para essa luta, Juanjo Pereira contribuiu com um belíssimo exemplar de uma história não apenas silenciada, mas agora muitas vezes revista por alegados líderes democratas que apenas escondem, via a liberdade, as suas tendências autocráticas.




















