Então é assim que entramos no inferno”, diz Yoshii (Masaki Suda), também conhecido como Ratel (texugo-do-mel) online, num final com tudo de assunção daquilo em que se transformou, qual pacto com o “diabo”, qual quê. Ao seu lado, um fiel “escudeiro” que, em tempos de capitalismo exacerbado de triunfo dos mais aptos, apenas lhe deixa um conselho: “preocupe-se apenas em fazer dinheiro. Eu trato do resto”.

É um desenlace brutal e revelador de todo um processo de interiorização e externalização de forças malévolas de um homem que no início faz da força braçal o seu trabalho, mas que paralelamente inicia no mundo online uma “carreira” a vender artigos obscuros. O nosso primeiro vislumbre dele é quando tenta comprar um conjunto de máquinas a um homem desesperado pelo preço de uma que posteriormente vai vender, dando logo sinal de alerta.  Aí ganha logo uma pequena fortuna, que não o relaxa a ter uma vida mais tranquila, mas instiga a prosseguir na sede do dinheiro. Iniciando o seu percurso ultraliberal ao lado de uma uma namorada, Akiko (Kotone Furukawa), também ela contaminada pelo discurso materialista, ele entrega-se ao negócio por conta própria, desprezando, com bastante desdém, a oferta de promoção que o chefe da fábrica onde trabalhava lhe propõe. Contrata um assistente, Sano (Daiken Okudaira), e começa na obscuridade das suas vendas a ter cada vez mais avaliações negativas e promessas de vingança dos compradores que foram enganados pelos produtos que vendeu a preços altos, mas que são meras imitações.

Nessa viagem pelo “engano” que lhe traz dividendos, a personagem de Sano é a mais indecifrável, mas por si só grande parte do interesse do filme. A certo ponto, os dois entram em ruptura, mas quando um grupo de “lesados” invade a casa de “Ratel”, para fazer justiça pelas próprias mãos, entrando o espectador numa nova fase de filme de cerco e vingança, o “fiel escudeiro” regressa para o ajudar com maior brutalidade que nunca. 

Movendo-se pelos terrenos do thriller e da ação, sempre estudando o desenvolvimento das suas personagens movidas pelo dinheiro e pelo poder, onde a separação entre o bem e o mal se torna cada vez mais clara, Kiyoshi Kurosawa  – que construiu a sua carreira com filmes como “Pulse”, “Cure” e  “Retribution” – entrega ao espectador um filme que, tal como o percurso do seu protagonista, começa num registo do terreno e do real, até desembocar num último terço com o seu quê de videojogo de tiroteios, ou filme de gangsters, numa fábrica abandonada, própria para perigos à espreita e inimigos a saírem das sombras.  

E nessa jornada de transformação, sempre de forma mordaz, Kurosawa reflete não apenas a obscuridade de quem entra no jogo capitalista de querer mais e mais, como faz um simples jogo de vingança a que “Ratel” e quem o acompanha têm de sobreviver. De certo modo, este podia ser o primeiro filme, uma origin story, do nascer de um vilão como aqueles que fundaram sindicatos do crime no Japão, que vulgarmente conhecemos como mafiosos ou, localmente, a Yakuza. E o final, embora não se atreva a imaginar o que vem a seguir, deixa em aberto essa possibilidade, pois o mal está formado, com os bolsos cheios de fundos e seguidores prontos a defender a sua jornada capitalista. 

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
cloud-kiyoshi-kurosawa-e-a-formacao-do-malNessa jornada de transformação, Kurosawa reflete não apenas a obscuridade de quem entra no jogo capitalista de querer mais e mais, como faz um simples jogo de vingança a que “Ratel” e quem o acompanha têm de sobreviver.