‘Me Tira Da Mira’, um policial com a marca cinéfila do sino-brasileiro Hsu Chien

Na imagem abaixo, Hsu leva a atriz Carmen Maura nos ombros, nos sets de "Veneza", ao lado do fotógrafo Gustavo Hadba | foto de Mariana Vianna

(Fotos: Divulgação)

Qualquer cinéfilo no Rio de Janeiro já foi brindado com uma gargalhada catártica, no meio de uma cena estapafúrdia no grande ecrã, seguida por um grito, “Que é isso, gente?”, num indicativo de algo fora de ordem na projeção. O grito veio do Hsu (pronuncia-se Chu). Ano a ano, ele vê no circuito, no streamings e em DVDs, cerca de 900 títulos ao longo de 365 dias. Quando encontra algum conhecido na porta de um multiplexe, como o Espaço Itaú ou o São Luiz, salas próximas de sua casa, no Catete, ele exclama: “Ó o fulano aí, gente!”, num gesto afetivo vibrante que faz dele uma das mais folclóricas personagens da vida cinematográfica do Rio de Janeiro, cidade que esse chinês nascido em Taiwan assumiu como lar. Mas para a indústria do audiovisual, a lenda do Hsu… cujo nome completo é Hsu Chien Hsin, vai além do seu carisma e da sua alegria contagiante: a sua competência como realizador e sua prolifera produtividade são os seus cartões de visita.

É assim desde 1996, quando fez “O Que É Isso, Companheiro?” (um thriller indicado ao Oscar e ao Urso de Ouro de Berlim). Dali para frente, ele despontou como um dos mais disputados assistentes de realização do Brasil. Apoiando realizadores das mais variadas gerações, ele dividiu o set até com Charlton Heston (em “My Father, Rua Alguem 5555”), Carmen Maura (em “Veneza”) e Hugh Laurie (“Chica de Río”). Trabalhou ainda com medalhões de prestígio internacional como Charlotte Rampling, Bill Pullman e Irène Jacob, em “Rio Sex Comedy” (2010). Depois de uma série de curtas premiadas, como “Flerte” (2014), ele passou à assinar longas-metragens como realizador. Filmou as comédias “Ninguém Entra, Ninguém Sai” (2016) e “Quem Vai Ficar Com Mário?”, filmada em 2019, mas ainda inédita. No fim de 2020, foi escolhido para rodar um thriller policial de toques cómicos, regado a adrenalina, protagonizado por uma estrela, Cleo (outrora conhecida como Cleo Pires, e revelada em “Benjamin”, há 18 anos). O projeto chama-se “Me Tira Na Mira”, e une a atriz ao seu irmão, o ator Fiuk, e ao seu pai, um rei dos reis da música romântica no Brasil: Fábio Jr.  

Em “Me Tira Da Mira”, Roberta (Cleo) é uma funcionária dedicada da Polícia Civil do Rio de Janeiro que se infiltra como agente secreta na Clínica Bianchini de Realinhamento Energético. A sua tarefa é investigar a misteriosa morte da atriz Antuérpia Fox (Vera Fischer). Durante a investigação, Roberta precisará lidar com os dramas da atriz Natasha Ferrero (Júlia Rabello), que acabou de ser “cancelada” pela internet. Ela ainda reencontra o seu grande amor do passado, o polícia federal Rodrigo (Sérgio Guizé), que está investigando uma suspeita de tráfico internacional envolvendo a mesma clínica. Para isso, ela vai contar com o apoio de Isabela (Bruna Ciocca), a sua terapeuta, com quem, aos poucos, forma uma dupla divertida e implacável. Fábio Jr. vive Jorge, chefe da Polícia Federal. Fiuk vive Lucas, parceiro de Roberta na polícia. Cris Vianna, Maria Gladys, Stenio Garcia e Rodrigo Fagundes são alguns dos destaques do elenco, assim como Silvero Pereira, o Lunga de “Bacurau” (2019).

Na entrevista a seguir, Hsu fala da sua jornada pelas narrativas policiais.


De que maneira você dialoga com a tradição do cinema policial, em especial com os filmes brasileiros desse filão?

Sempre fui apaixonado por todos os géneros e o policial tem um lugar destacado, pois alguns dos meus filmes chave da vida são passam pelo universo policial: “Os Bons Companheiros” [Tudo Bons Rapazespt], “Taxi Driver”, ‘Scarface”, enfim… o género é uma delícia, pois nele existem histórias que mesclam ação, drama, romance, suspense e um fino humor. No Brasil, sou apaixonado por policiais dos anos 1980, por clássicos como “República dos Assassinos”, “Rainha Diaba”, “Eu matei Lucio Flavio”. E ainda tem o maior de todos os clássicos brasileiros do género: “Assalto ao Trem Pagador”. “Tropa de elite” foi um retorno a essa linhagem no país, e um sucesso avassalador. Na sua esteira vieram outros filmes. Acompanho o género aqui na filmografia brasileira até porque, como assistente de direção, trabalhei numa grande produção dessa linhagem: “Assalto ao Banco Central”. Apesar de todas as dificuldades técnicas, fazer um policial é algo que provoca, motiva, instiga. A gente sempre fala: “Temos que fazer melhor do que o filme de 2º escalão americano”, ou, temos que tomar cuidado para não virar “defeitos especiais”. Temos know-how, mas é tudo bastante caro e aumenta em demasia o valor de produção e de orçamento.

Como a Cleo, uma estrela apresentada ao audiovisual pelo cinema, em “Benjamin”, em 2003, mais o surpreendeu?

Cleo é um talento absurdo: canta, dança, é excelente em cenas de drama, comédia, romance, ação. São poucas as atrizes com quem trabalhei que são tão versáteis. Mais do que isso, a forma como ela joga junto com a direção, contribuindo com sugestões úteis, faz dela uma colaboradora inestimável. A câmara é totalmente apaixonada por ela. Quando olhamos para o monitor, a sua presença é magnética. Como se dizia nos tempos áureos do Cinema: Cléo tem “star quality“.

Qual é a noção de heroísmo possível que o seu novo filme abarca e traduz em forma de narrativa?

Fazer filmes policiais no Brasil é curioso, pois é difícil dissociar o filão da figura heróica que chega para acabar com a corrupção, as injustiças sociais, a violência e a pobreza que assolam o país. A Roberta, que a Cleo, interpreta é essa personagem que busca a justiça, sem vingança, mas honrando a corporação onde trabalha. O mundo que a cerca no trabalho é pautado pelo machismo e pelo assédio moral, querendo sempre desmerecer o trabalho das policiai por puro deboche. Por conta do seu entusiasmo e dedicação, destaca-se. O filme tem um protagonismo feminino forte e são as mulheres que provocam a reviravolta das personagens masculinas. As nossas referências foram todas de clássicos pop com as mulheres comandando as operações: “Sr e Sra. Smith”, “Kill Bill”, “Sicario”, “As Panteras” [Anjos de Charliept].

Vem de uma trajetória pelo humor que desafia os códigos morais do Brasil e brinca com as orientações e representações sexuais. O quê dessa linha irónica das suas longas-metragens anteriores cruza-se com o “Me Tira Da Mira”? A que novos terrenos essa narrativa tem te levado?

Sempre foi uma preocupação minha, na escalação do elenco, deixar nítido e transparente a importância da diversidade, tanto em géneros, como raças. Fazemos filmes no Brasil: um país formado por várias culturas. Então não faz sentido fazer um filme onde não percebamos essa miscigenação entre as personagens. Até mesmo os sotaques , quando possível, deixo os atores manterem. Sou um cineasta chinês, nascido em Taiwan, a fazer filmes no Brasil. Isso já é um símbolo do que eu preciso buscar nos filmes. Outra preocupação é na dramaturgia, no roteiro. É muito importante entendermos que a sociedade não é mais a mesma de anos atrás, e, para o género comédia, isso provocou uma transformação e evolução de pensamentos e representatividade. A comédia, até pouco tempo, extraía muito das suas gargalhadas do público em cima do bullying e da humilhação de personagens, em função de tipos físicos, géneros ou raças. É hora de mudar. Temos que estar atentos a tudo isso.

Você é um dos cinéfilos mais atuantes do Brasil, onipresente em mostras e em salas de exibição, folclórico pelo seu bordão “Meu Deus! Ó o fulano aí, gente!”, brandido sempre com carinho. Como você vê o atual empenho de ocupação das salas, após a quarentena. E qual foi o filme mais impactante que viu no circuito em 2020?

Sei que esse é um assunto bastante polémico, porque conheço muitos amigos cinéfilos que são contra a reabertura das salas de cinema nesse período da pandemia. Mas quem me conhece sabe que sempre fui cinéfilo. Assisto filmes todo dia. E, nessa quarentena, foi tudo muito difícil para mim. Ir à sala de cinema é um ritual que me faz bem, é o meu segundo lar. Preciso estar na sala escura e viajar no filme que está sendo exibido na tela grande. Quando as salas reabriram, em outubro, foi como ter a minha vida de volta. Assisti a muitos filmes bons no início do ano, mas “Tenet” foi um dos mais impactantes por dois motivos: por ser o primeiro blockbuster a que assisti na reabertura das salas e, também, por ser uma obra-prima de realização. Claro que a ida às salas de cinema deve seguir rigorosamente o protocolo de segurança: máscaras, álcool gel, funcionários protegidos, distanciamento, retorno da função do lanterninha para vistoriar as salas, afastamento dos assentos. Tudo isso é fundamental para que o espectador se sinta seguro.

Como foi o trabalho com Fabio Júnior, um dos cantores mais populares do Brasil no set?

Quando fui apresentado ao Fábio Jr., numa sessão remota de zoom – pois ele mora em São Paulo, e eu, no Rio de Janeiro -, soube que por conta da pandemia os ensaios teriam que ser online. Na conversa, ele comentou o grande desejo de querer voltar a atuar. Comentei que era fã absoluto do trabalho dele em “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues, e da série “Ciranda Cirandinha”. Ele é muito inteligente, perspicaz, sagaz, entende tudo muito rápido, sabe lidar com o humor, o drama, a tensão. A personagem dele, Jorge, é o chefe da Polícia Federal, e todas essas nuances foram bem administradas pelo Fábio como ator. Tem uma cena que junta ele e os seus filhos: a Cleo e o Fiuk. Nela,quase chorei de emoção por ter sido responsável em unir, pela primeira vez, os três numa cena. E claro, ele sempre agradecia a todos com o seu famoso bordão “Brigaduuuuuuuu!”.

Qual foi a importância do ator e dublador[que faz dobragem nos filmes] Pietro Mario, morto em agosto de 2020, na sua carreira?

Pietro Mario foi o responsável na minha passagem para a direção. Desenvolvi um projeto de curta, chamado “Pietro”, e convidei-o para atuar. Falei que o roteiro era uma homenagem a ele. O filme foi muito bem recebido nos festivais, e fui convidado para vários projetos. O Pietro foi um ator extraordinário, que tive a sorte de poder conhecer e com quem tive a honra de trabalhar. O filme que fizemos é uma homenagem a um dos grandes talentos artísticos do Brasil.

Quantos filmes você dirigiu? Em quantos foi assistente?

Nasci em Taiwan e sou naturalizado brasileiro. No Brasil, como assistente de direção, trabalhei em 78 longas-metragens, uma novella e dez séries, fora curtas e comerciais. Como realizador, dirigi oito curtas, ganhando mais de 20 prémios, incluindo a láurea de melhor curta-metragem do Grande Prémio da Academia Brasileira de Cinema por “Flerte”. Acabei de realizar a minha terceira longa-metragem, que é este “Me Tira Da Mira”, de que falamos. O primeiro foi “Ninguém Entra, Ninguém Sai”, adaptação de um conto do Luís Fernando Verissimo que, de certa forma, previu a pandemia que estamos a viver agora. Em 2019, dirigi “Quem Vai Ficar Com Mario?”, uma deliciosa comédia musical, que era para ter sido lançada em 2020, mas, com a pandemia, ficou para 2021.

Qual foi o filme que te fez querer estudar Cinema e porquê?

Seria presunção da minha parte citar algum filme mais “cabeça”. Foi Spielberg o responsável em me trazer o desejo de querer estudar Cinema, com “ET”. Queria muito trazer essa fantasia escapista e emocionante para o público. Mas o meu divisor de águas artístico, e sempre uma referência, é “8 1/2”, de Fellini.

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