Constantino Martínez-Orts, a paixão pela música para cinema

(Fotos: Divulgação)

Foi em 2013 que a Film Symphony Orchestra (FSO) – a única orquestra ibérica dedicada exclusivamente a bandas sonoras de cinema – iniciava o seu percurso com um concerto em Valência. Cinco anos depois, a tournée atual inclui 65 espetáculos, passando por várias cidades espanholas, mas também pelo Porto e Lisboa.

O grande obreiro por trás desta orquestra é o maestro Constantino Martínez-Orts, o qual apaixonou-se pela música feita para cinema quando aos cinco anos de idade viu ET – O Extraterrestre.

Na preparação para o concerto em Lisboa, Martínez-Orts falou ao C7nema, explicando como começou a sua paixão pela música, o interesse na carreira de John Williams, a fundação da sua orquestra e os seus planos para o futuro. Pelo meio, ainda falamos da música atual e até tivemos uma opinião sobre como o cinema e a TV retratam os maestros nos seus produtos de entretenimento.

Quais são as suas expetativas para o concerto em Lisboa?

Temos o precedente no Porto há mês e meio e a experiência foi maravilhosa. O público recebeu-nos com imenso carinho, havia uma energia muito especial e para nós era um passo muito importante vir a Portugal. Com este precedente, estamos mais tranquilos para tocar em Lisboa, pois se o público daqui for tão amável e gentil como o do Porto, creio que vai ser um êxito com uma energia muito especial.

E como começou esta sua aventura com a Film Symphony Orchestra?

Começou pela minha paixão pessoal pelo cinema e pela música feita para cinema. Apaixonei-me pela música clássica e música para cinema quando tinha 5 anos ao ver o ET do Spielberg com a música do John Williams. Aí nasceu uma paixão pela música sinfónica, comecei a estudar em Espanha, no Conservatório, e durante toda a minha vida vivo este amor à música para cinema, paralelamente à que tenho à música clássica.

Chegou um momento em que me quis especializar em música para cinema, fui estudar para Londres, e sigo o ramo de direção de orquestra e os estudos nos EUA, em Nova Iorque, em Itália e na Roménia. Quando regressei a Espanha encontrei uma carência de como se trata a música para cinema, uma forma descuidada de olhar para ela, como se fosse de 2ª linha. Decidi então criar uma orquestra que trate, cuide e que mime a música para cinema com o rigor e o respeito que merece. Não para a ver como de 2ª classe, mas com a mesma qualidade que qualquer partitura que se faz hoje em dia. E que não fique nada a dever a uma obra de Mahler ou uma ópera de Puccini. Creio que a minha orquestra entrega-se ao máximo em cada nota que lança.

Disse em entrevistas no passado que a música clássica precisava de uma revolução para conseguir atrair mais jovens. Acredita que esta orquestra faz isso?

Sim, e para além de ter criado esta orquestra pela paixão que tenho pela música de cinema, outro dos objetivos era de levar a música sinfónica ao grande público. Acho que a música clássica precisava e ainda precisa de uma revolução. Nós fizemos uma pequena parte para que isso aconteça. Não podemos ter um público que sente que por não ser entendido na matéria não possa desfrutar de uma orquestra.

Há gente que vê esta arte como um instrumento para eruditos, entendidos na matéria. O que sempre pensei é que, se a música para cinema é capaz de suscitar estas emoções, é capaz de o conseguir com toda a gente. Fazer rir, chorar, até aterrorizar – como no Tubarão. Acima de tudo ver que a música de cinema tem a enorme capacidade de nos fazer voar. É como nos perfumes. Sentes o cheiro e recordas-te de alguém ou de um local. Eu acredito que a música de cinema tem essa capacidade de evocação, de nos levar para outro lugar.

E a orquestra, tem espaço também para trabalhar em temas feitos para televisão, como Guerra dos Tronos, por exemplo?

Sim, nesta homenagem ao John Williams não, mas em outros anos tivemos espetáculos onde já fizemos isso. Na verdade, tocamos tudo do mundo audiovisual. As séries, por exemplo, estão cada vez mais a converter-se em grandes produções. Não vou dizer que o cinema de hoje são as séries, mas estas cresceram muito. O mesmo se passa com os videojogos. Estão a nascer bandas-sonoras dignas de super produções.

E como vê a composição para cinema atualmente? Pensa que estamos num período bom em termos criativos?

Não vou dizer que não, mas no meu background venho de peças mais elaboradas. Estamos numa etapa em que a tecnologia está a ganhar terreno no trabalho de composição. Não gosto de generalizar, mas o uso extensivo da tecnologia está a fazer com que haja, não vou dizer menos qualidade, mas menos elaboração nos discursos musicais. Penso que é preciso encontrar um equilíbrio; há compositores que já encontraram, outros nem por isso.

A máquina de Hollywood está atualmente a fazer as músicas muito iguais umas às outras. Como tudo, há que fazer um bom uso da tecnologia, como faz o Hans Zimmer. Começou a fazer partituras muito comerciais mas aos poucos foi fazendo uma investigação sonora. A música do Inception – A Origem não soa igual a Dunkirk ou ao Cavaleiro das Trevas.

Nessa linha, creio que há compositores que estão a saber utilizar inteligentemente a eletrónica para dotar um filme da sonoridade que precisa. Uma sonoridade particular que faça uma fita única e não a de uma fábrica que faz filmes como quem faz parafusos.

O que gosta mais em John Williams?

Tudo. Pela sua carreira, pela quantidade de películas onde trabalhou, pela qualidade – estamos a falar de cinco Oscars em 51 nomeações. Tocou todos os géneros de maneira magistral: o drama histórico, o drama bélico, o terror, a aventura, a fantasia. E trabalhou em filmes como Indiana Jones, ET, o Super-Homem, Jurassic Park, Star Wars, a Lista de Schindler, A Rapariga que Roubava Livros… Tocou tantos géneros de uma maneira tão inteligente.

Creio que nele se juntam circunstâncias muito especiais. De um lado, temos uma pessoa com uma formação sólida, um grande compositor, um grande pianista. Conhecedor de uma grande variedade de estilos, John Williams vem do mundo do Jazz; era Johnny Williams, pianista de Jazz na sua juventude. Tocava em bares noturnos para pagar os seus estudos. Com esta sólida formação, ele começou a compôr para o cinema e a entender o que faz falta num filme. Para além disso acho que tem o dom divino, capaz de o fazer criar estas melodias que têm algo especial que não podemos esquecer, como o tema de Harry Potter, do Super-Homem, Indiana Jones. Com todo o meu respeito, e com toda a grandeza de Jerry Goldsmith, que foi um dos maiores compositores para cinema, ele não tinha aquele dom/toque que tinha Mozart, o qual também Salieri não tinha. Williams tem uma série de factores que convergem nele que fazem de si o compositor vivo mais importante e o que mais influenciou a história do cinema no século XX. E digo isto com todo o respeito a Ennio Morricone.

Há muitos filmes e séries que acompanham maestros, como o Mozart in The Jungle. Como é a sua visão crítica sobre esses programas? Eles representam-vos bem?

(risos) São muito exagerados. Há sempre uma série de tópicos a abordar em todas as profissões, mas não é assim. (risos). 

E houve algum filme ou série onde esse trabalho estivesse bem representado?

Não, de todo. Há partes em que é assim, nas visões mais generalistas. O estar presente em todas as circunstâncias, mas normalmente são incutidos muitos elementos de ficção. É ficção, entretenimento…

E depois do foco em John Williams, quais são os planos para a orquestra?

Sim, esta é a nossa quinta ou sexta tournée desde que começamos em 2013. Chegamos agora a Portugal e todos os anos mudamos o programa dos concertos. Este ano quisemos homenagear os 50 anos da primeira nomeação do John Williams aos Oscars pelo Vale das Bonecas. No ano que vem, estamos a preparar um repertório novo com diferentes filmes e temas que marcaram a história do cinema, abarcando o maior número de géneros, compositores e décadas.

E tem planos para trabalhar na composição para cinema ou TV?

Há cinco anos que quero, mas o facto de gerir a orquestra, a empresa, faz com que tenha pouco tempo. Espero que com o tempo possa centrar-me mais na música e menos na gestão.

Mas está feliz com a orquestra. A Film Symphony Orchestra é um sucesso?

Sim, estamos todos muito contentes. O problema, que não é problema, mas uma sorte, é que em cinco anos crescemos de um primeiro concerto em Valência até hoje, onde temos uma tournée com 65 espetáculos, entre Espanha e Portugal, em 9 meses.

São muitos concertos, muitos quilómetros. O tempo que passo em casa, em Madrid, é muito pouco. Espero encontrar no futuro um melhor balanço para dirigir e compor também.

 

 

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