A dor e a dúvida pesam no peito neste “Caros Camaradas!”, uma recriação ficcional da revolta e massacre de Novocherkassk em 1962, que vitimou quase três dezenas de pessoas e feriu 87 (várias fontes falam em 80 mortos).

Respondendo a uma greve de trabalhadores e protestos, devido à redução dos salários e ao aumento dos preços dos alimentos, soldados do Exército Vermelho e agentes do KGB abriram fogo sobre uma multidão, enterraram os corpos e asfixiaram qualquer exposição do caso a nível nacional. E apesar de Aleksandr Solzhenitsyn mencionar a revolta numa cidade, um massacre que se seguiu e o abafar do caso no seu “Arquipélago de Gulag” (escrito entre 1958 a 1967, publicado no ocidente em 1973), apenas em 1992 foram confirmados os eventos, exumaram-se cadáveres e deu-se-lhes um enterro condigno. Semelhantes repressões sucederam-se na URSS e no bloco de leste, como o recente híbrido “1970” mostrou na Polónia.

Filmado num preto e branco nítido, tal como “Paraíso” (2016) do mesmo realizador (que também tinha Yuliya Vysotskaya), cortesia do diretor de fotografia Andrey Naidenov, o filme foca-se fundamentalmente em Lyuda, funcionária do partido comunista e mãe solteira que após o massacre não vê a sua filha Svetka voltar a casa, temendo o pior. Inicia-se aqui uma jornada de desespero, contenção e suspeição que ela possa ter sido capturada, detida ou até morta. Mas esses sentimentos são sempre abafados, suprimidos e forma tão mecânica como aquela frase que frequentemente se vai ouvindo, “Dorogie tovarishi!” (Caros camaradas!), supostamente proferida a “um igual”, a um “companheiro“, “colega” ou “aliado“, mas que na verdade não o é, pois em todo o regime comunista a estrutura de poder vertical na sociedade nunca deixou de existir.

Paralelamente a esta história pessoal de uma mãe em busca da filha, olhamos para a decisão do massacre com tanto de estalinismo (em tempos em que ele já não está no poder) como de incompetência e burocracia, elementos que vão consecutivamente atormentar a mente de Lyuda, uma crente comunista que ainda idolatra Estaline, mas agora entregue a ambiguidades éticas, morais e sentimentais entre a lealdade ao partido e o seu amor de mãe. Para estas suas dúvidas acrescente-se as palavras do seu velho pai, que vai contando histórias de horror do passado soviético, especialmente em terras de cossacos e camponeses.

Yuliya Vysotskaya, habitué no cinema Konchalovsky –  dá espessura, sentimento e racionalidade à sua Lyuda, muitas vezes acompanhada por um oficial do regime com quem tem um caso. Há particularmente uma cena em que ambos visitam um cemitério que fica na retina e abalroa a esperança, dominando o cineasta o espectador com um registo entre o filme histórico, que nunca se sente sobre-didático,, o thriller de suspense e o drama familiar contido e rígido como toda a estética que o cineasta cria.

Numa entrevista há uns meses, Konchalovsky admitiu felicidade pela sua carreira ter fracassado em Hollywood (entre outros filmou “Tango & Cash”), pois permitiu outros voos e liberdades. Nesse aspeto, “Caros Camaradas!” é um enorme voo rasante que derradeiramente acerta no alvo e cumpre a sua missão com distinção.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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