A cerca de 11 dias do natal, em 1970, a escassez de alimentos e um aumento desenfreado dos seus preços por parte do governo polaco levou a um dos maiores e mais sangrentos protestos da história do país, retratado neste “1970”, que estreia agora no Visions du Réel em plena competição internacional.
A escolha estilística para mostrar essa revolta, que o realizador Tomasz Wolski encontrou para o seu filme, circula entre imagens e áudios de arquivo e uma apresentação das principais figuras que tentam controlar a revolta através da animação stop motion. Os “bonecos” têm sido, aliás, utilizados recentemente para contar eventos reais, como o filme “Vicenta” demonstrou na sua análise a um caso de abuso sexual e a luta de uma mulher para o aborto da filha na Argentina.
Aqui, porém, a forma ganha uma ainda maior sobriedade, sendo o espectador colocado perante um evento que de certa maneira funciona como sequela temática do trabalho anterior de Wolski, “An Ordinary Country”, onde a “sociedade de vigilância” era analisada no país que pertenceu ao bloco de leste.
Mas apesar desta gímnica stop motion, é no material em vídeo e especialmente nos áudios da época que se encontram as maiores forças deste trabalho documental, com as palavras ecoadas pela equipa de gestão de crise do governo a trazerem para o espectador toda a agressividade e tensão dos eventos. O cineasta frequentemente situa de forma didática, através de descrições em texto, as personagens em cena e o seu papel no regime. A escolha de apresentar tudo no formato 4:3, adicionando filtros baços à imagens stop motion, leva-nos imediatamente para um momento histórico bem datado, como se fosse um registo real onde a película foi corroída pelo tempo, agindo assim tudo isto como um objeto para adicionar aos arquivos sobre o tema, uma verdadeira cápsula temporal estilisticamente e criteriosamente trabalhada.
Convém realçar que estes protestos começaram com greves nos estaleiros, mas rapidamente espalharam-se para as ruas, apoiados pelos estudantes, movendo-se assim a narrativa de Wolski por vários espaços, sempre com a atenção do centro de comando das operações, que tenta travar a revolta. Das ruas para os escritórios, onde se gere a crise, o clima sombrio paira sempre no ar como uma aura que anuncia – e sabemos – que tudo vai acabar mal, mas surpreende ainda assim a sequência de eventos, retratada sempre num clima de verdadeiro suspense.
No final temos assim um belo registo histórico onde o peso do seu autor e do estilo para apresentar os eventos sente-se, sem nunca esmagar o espectador no jogo entre forma e conteúdo.



















