Só à nona vez e numa votação histórica, no final de 2020, palavras como a de Mónica Macha puderam finalmente ser ouvidas e escritas na Argentina: “Conseguimos, irmãs. Fizemos história. Fizemo-lo juntas. Não há palavras para este momento, atravessa o corpo e a alma”.

O motivo era  a descriminilização do aborto até às 14 semanas no país, isto depois de uma “maré verde” de protestos, nascida em 2018 e que ultrapassou fronteiras (lembro-me de ver uma ação no Festival de San Sebastián em 2019), quando o Senado chumbou a oitava tentativa de mudar a lei.

Apesar do triunfo, muitas foram as histórias de mulheres que antes desse dia viram os seus corpos serem motivos de discussão do que fazer com eles. “Vicenta”, documentário de Darío Doria, acompanha um desses casos.

Vicenta é analfabeta, mas isso não a vai impedir de começar uma luta que chegará mesmo à Comissão de Direitos Humanos da ONU em 2011. Habitante de Guernica, na província de Buenos Aires, com a sua filha deficiente intelectual Laura, de 19 anos, descobre que a pequena está grávida de 14 semanas, tendo sido abusada pelo tio, Luís. Ajudada pela filha mais velha, Valéria, Vicenta vê-se embrulhada em legislação pouco clara, rios de burocracia e todo o tipo de testes que a filha terá de ser submetida e que acentuam o trauma. Ela avança com um processo contra Luís, mas esbarra num labirinto de indecisões e decisões das autoridades na hipótese de conseguir um aborto para a jovem.

Marcadamente político, mas acima de tudo um drama familiar e social, “Vicenta” movimenta-se pelo terreno do documentário na velha fórmula do David Vs Golias, escolhendo apresentar toda a sua história através de modelos de plasticina, imagens reais dos eventos televisionados, e uma narração em off que serve quase como um diário (e desabafo) da protagonista na sua luta. Mas ao invés de animar os seus modelos de plasticina, Dória – de forma mais limitada, mas não redutora – joga com as luzes, a câmara e as texturas, criando assim a ilusão de movimento num cenário criteriosamente trabalhado pela direção de arte a cargo de Mariana Ardanaz.

O resultado final é bastante eficaz, munindo o documentário de uma vida bem diferente da dos documentários tradicionais, escusando-se assim a entrevistas misturadas com imagens de arquivo para relatar uma história pessoal que contribuiu certamente para que em 2020 a decisão de mudar a lei do aborto fosse avante. No mais, faz lembrar a forma como Rithy Panh recriava as atrocidades cometidas pelos Khmer Vermelho no seu trabalho “A Imagem Que Falta“, mas aqui aplicado em toda a sua extensão.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
vicenta-a-luta-por-um-aborto-antes-da-mare-verdeMarcadamente político, mas acima de tudo um drama familiar e social, “Vicenta” movimenta-se pelo terreno do documentário na velha fórmula do David Vs Golias