Anos depois de ter brilhando com “Democrats”, sobre a construção constitucional do Zimbabué, que acabou com inúmeras premiações, como no Festival de Tribeca, a dinamarquesa Camilla Nielsson regressa ao país para filmar o processo eleitoral das presidenciais depois de Robert Mugabe ter sido afastado do poder pelo seu próprio partido, isto depois de 38 anos de ditadura.
O foco agora é o jovem Nelson Chamisa, líder do Movimento pela Mudança Democrática, que procura subir ao poder, retirado assim a histórica presença da União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (ZANU-PF), agora sob a liderança de Emmerson Mnangagwa, antigo vice-presidente na era Mugabe.
Construído na forma de thriller, a cineasta mais uma vez supera a sua própria ambição, demonstrando através das suas filmagens como a esperança de uma real mudança numa jovem democracia foi sequestrada a céu aberto e com discrepâncias numéricas assustadoras na hora da contagem.
Os primeiros momentos são de puro romantismo democrático, típicos de sociedades pós-revolução. Chamisa anda de aldeia em aldeia, chegando a fazer quatro comícios por dia. Desde sempre um opositor de Mugabe, tendo sofrido espancamentos nos tempos de estudante por parte do regime, pesa nele um olhar terno repleto de carisma no diálogo com uma população que acredita que novos tempos chegaram.
Do outro lado da barricada, Mnangagwa promete transparência, apoiando-se na presença de delegados independentes de vários territórios, como EUA e UE, mas o que assistimos quando chegam as eleições e começa a contagem dos votos, é surrealidades atrás de surrealidades, e números díspares um pouco por todo o lado. Elementos processuais e burocráticos das eleições, crispações entre partidos e a comissão eleitoral, são aqui apresentados com doses de ironia e sarcasmo que faz lembrar o cinema de Wiseman (veja-se o recente “City Hall“, por exemplo), mas Camilla Nielsson tem um jeito muito nórdico na abordagem a todo o material, seguindo hipocrisias e meias verdades na forma de suspense, um pouco como outros cineastas da região o fazem, como o sueco Fredrik Gertten.
No final temos um documento vivo para a posteridade e um retrato cru do desânimo, pois depois de uma ditadura há sempre muito atrito a uma verdadeira mudança, que só se efetivará com a maturidade dos procedimentos e da própria democracia.



















