O mundo do Xadrez sempre foi profundamente masculino e não precisávamos de uma série como “Gambito de Dama”, na Netflix, para o mostrar às massas. Ainda hoje, no top 100 mundial, existe apenas uma mulher (a chinesa Hou Yifan), e contabilizando todos os mais de 1600 possuidores do título de Grandmaster ao longo dos tempos, apenas constam o nome de 37 mulheres.

Glória à Rainha” das  georgianas Tatia Skhirtladze e Anna Khazaradze, presente no É Tudo verdade, olha para o passado com foco em quatro pioneiras nesta modalidade (Nona Gaprindashvili, Maia Chiburdanidze, Nana Alexandria e Nana Ioseliani), que nas Olimpíadas de Xadrez de 1982 em Lucerna, Suíça, conquistaram o ouro pela União Soviética. É uma viagem semelhante, mas menos esteticamente elaborada, que a feita por Julien Faraut já este ano em “Les sorcières de l’Orient“, onde o francês habituado a ensaios sobre o mundo do desporto revisitava entre o hoje e o ontem a famosa equipa de voleibol nipónico que fez sucesso nos anos 60 na modalidade.

Apesar de pelo ecrã passarem várias figuras da modalidade, entre elas a falecida Milunka Lazarevic, há duas que se destacam na análise ao percurso e conquistas na modalidade. Primeiro, Nona Gaprindashvili, a primeira mulher a abrir caminho na frente da Géorgia e a receber o título de Grande Mestre de Xadrez, em 1978, e que incorrectamente, na série da Netflix,  é mencionada com a afirmação errónea de que nunca jogou contra homens em competições. Depois, temos Maia Tschiburdanidze, que a sucedeu em sucesso e destreza.

Tatia Skhirtladze e Anna Khazaradze abordam todo o material entre imagens de arquivo dos tempos áureos da URSS e a atualidade, lançando um olhar político e histórico sobre esse percurso (da Geórgia antes de depois da queda da URSS) e a forma como estas mulheres pioneiras triunfaram num mundo dominado por homens. E não dominado apenas no que toca ao Xadrez, jogo de especial expansão no mundo burguês onde curiosamente a Rainha é a peça com mais liberdade de movimentos e preponderância, o que contrasta com a realidade, onde estas mulheres tiveram deum jeito muito incisivo e preciso escapar ao estereótipo da posição da mulher nas suas sociedades.

No final, temos assim um documentário que apesar de partir de um grupo de mulheres bem específico traça um quadro bem geral da condição feminina, mostrando que quer no Xadrez, quer no Voleibol ou outras modalidades, existiram sempre mulheres que tentaram escapar ao destino que a sociedade lhes reservava, abrindo portas para muitas outras, como à chinesa Hou Yifan ou outras grandes jogadoras da modalidade como Judit Polgar.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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