Estima-se que mais de 2,6 milhões de imigrantes trabalham na área da saúde nos EUA, muitos deles como enfermeiros-cuidadores que ganham substancialmente menos que os seus colegas nascidos no país.
“Ludi” segue a personagem título (Shein Mompremier), uma enfermeira que se desdobra em turnos para conseguir juntar dinheiro para si e para a família que deixou no Haiti aos 10 anos quando foi tentar a sua sorte em Miami, mas que por estas alturas – e fazendo contas à vida – não consegue ainda ter uma nesga do sonho americano, ou pelo menos uma solidez monetária que lhe permita pagar a renda a horas.
Uma boa oportunidade aparece, quando a sua senhoria lhe arranja um trabalho extra de apenas uma noite, onde ganharia 500 dólares. Pressionada pelos familiares no Haiti, com quem troca frequentemente cassetes de áudio, chantageada por colegas nos EUA, que se acercam de si em atos de engate, e sem conseguir mais turnos no seu emprego diário, que exige exclusividade, Ludi aceita relutantemente essa tarefa, tendo de conseguir “domar” um idoso que tudo o que menos quer é sentir-se um inútil que precisa de ajuda.
Mais conhecido pela série “Grown” (2018), o realizador Edson Jean traça um retrato interessante de migrantes legais, colocando frequentemente em confrontação questões de identidade e a gestão de expectativas. Não são raras as vezes que muitos emigrados do Haiti, também no território, confrontam Ludi por esta já não ir a igreja, ou não ter marido ou vida pessoal, afirmando que já se comporta muito mais como uma cidadã dos EUA que haitiana.
O filme ganha maior dimensão quando se dá a confrontação entre a cuidadora e o homem que deveria cuidar, abrindo os dois portas para revelarem as suas frustrações quotidianas, que vão desde a inevitável velhice e a dependência de terceiros para atividades rotineiras (tomar banho, vestir-se, preparar refeições), até à ausência de uma vida que não seja para trabalhar, estando manifestamente esgotada para isso.
Jean enche o ecrã com o close-ups dos seus protagonistas, assumida por uma atriz com carisma suficiente para transportar a sua vida quotidiana sufocante de gestão de expectativas, e um homem (Alan Myles Heyman) que expõe a sua vida particular, mas que ressoa no ecrã como uma história coletiva de idosos que já não conseguem viver sem ajuda.



















