Os temas do trabalho, ou a falta dele, têm feito parte do ADN cinematográfico de Susana Nobre na última década, quer seja pelos problemas originados pela eliminação do programa Novas Oportunidades, retratado no seu “Vida Activa”, quer seja nas “Provas, Exorcismos” que levou à Quinzena dos Realizadores em Cannes já lá vão seis anos e que nasceu a partir desse mesmo documentário.
A esse olhar e preocupação temática junta-se uma marca autoral na estética e arranjo narrativo que circula entre a ficção e o documentário, preferindo muitos evocar o cinema de Aki Kaurismäki para falar do de Susana Nobre, a qual apesar de andar nisto já lá vão 20 anos, teima em não explodir.
“O Táxi de Jack” contém certamente uma personagem capaz de inflamar a audiência e levar a autora para um patamar diferente, mas a verdade é que em vez de explosão, o que assistimos é à implosão de um projeto que no seu último terço simplesmente deixa de existir, juntando-se à tradição de curtas-metragens vestidas de longas.
Aonde foi o filme?, questionou-me um amigo, também crítico de cinema, após o visionamento deste “O Táxi de Jack”, no qual acompanhamos o sexagenário Joaquim Calçada, um ex-emigrante perto da reforma que se vê obrigado a cumprir as regras e burocracias exigidas pelo centro de emprego, para usufruir do subsídio.
Começa assim uma viagem à procura de emprego, ou antes, ao carimbo de visita às empresas, já que Joaquim prefere não voltar a trabalhar por se encontrar tão perto da reforma. É entre essas paragens, naquilo que a cineasta define como um road-movie fechado que vamos conhecendo a vida deste homem, que emigrou para os EUA, onde fez vida de taxista, e regressou a Portugal décadas depois para encontrar o país já num regime democrata.
Rico em observações e dramas (como quando foi enganado por um amigo irlandês), Joaquim faz o filme enquanto ele existe, conquistando-nos pela naturalidade com que debita pérolas como “Nova Iorque é parecida a Vila Franca de Xira por ter uma zona oeste e este”. Mas sozinho não consegue carregar o peso da vacuidade que se sente no final deste “O Táxi de Jack”, uma produção que na realidade parece mais uma ação de pitching que um filme em si que nos conquiste, quer na vertente emocional e de consequente empatia com os visados, quer pela observação e reflexão política e social, já que por aqui transitamos entre estórias e histórias que percorreram várias décadas onde as políticas do trabalho, cá (Portugal) e lá (EUA), e a própria questão do porque trabalhamos, sempre estiveram sob forte escrutínio e debate.
Na verdade, o que aparenta neste “O Táxi de Jack”, que sem dúvidas é mais a uma paragem da realizadora numa corrida iniciada em “Vida Activa”, é que com tanto medo de ser caracterizada como autora de cinema social, Susana Nobre acaba por preferir a dispersão e esconder-se no vago, tudo para embaciar um quadro de diagnóstico onde parece ser óbvio existir um sério problema de resolução. E isso era coisa que também já se sentia no seu “Tempo Comum”, baseado nas suas experiências de maternidade.
(Crítica originalmente escrita em fevereiro de 2021)





















