Embora inspirado na própria experiência escolar de Steve McQueen, quando foi colocado numa turma para alunos que os professores consideraram mais adequados “para trabalho manual” – “Education”, tal como “Lovers Rock” (inspirado nas histórias que uma tia do cineasta contava sobre festas nos anos 80), é um dos maiores ensaios de ficção da série antológica “Small Axe“, que em “Mangrove”, “Red, White an Blue” e “Alex Wheatle” seguia eventos e personagens reais representativas das experiências da comunidade caribenha em Londres entre as décadas de 1960 e 1980.
Construído como uma crítica ao sistema educacional que vigorou e que prejudicou intencionalmente crianças não brancas, com reflexos e condicionamentos até hoje, mas igualmente como um retrato íntimo de um pequeno com sonhos altos, mas que vê-se retido num sistema com outros planos para si, “Education” acompanha de perto Kingsley (Kenyah Sandy, estrondoso), um miúdo de 11 anos que torna-se vítima do racismo institucional depois de ser enviado para uma “escola especial”, ou como o nome institucional diz, para pessoas “subnormais”. Com a cabeça para lá das nuvens, bem próximo das estrelas, planetas e galáxias, já que ambiciona ser astronauta, não há dúvidas que Kinsgley está atrasado em relação aos outros colegas, tendo particularmente dificuldades na leitura, ainda que seja bom a matemática e também desenhe.
Desiludido em geral com os adultos que o rodeiam, sejam eles os professores, o reitor e até os pais, demasiado ocupados entre vários empregos para sustentar a família, o rapaz encontra uma nova oportunidade quando conhece uma psicóloga, que numa visita à escola “especial” percebe que ali é impossível aprender o que quer que seja, e que estes são depósitos para encher as fileiras de uma sociedade que precisa sempre de mão de obra barata e força braçal. Mas o aprender a ler não é a única coisa que Kingsley terá de fazer para dar um passo gigante a nível pessoal, mas igualmente conhecer um pouco da história negra, já que aquela que é ensinada na escola começa com os negros escravos a serem traficados e vendidos pelos brancos.
Se “Alex Wheatle” parecia uma história imensa para a sua curta duração (também uma hora), “Education” ganha com essa curta duração uma forma mais intima que qualquer outro dos filmes da antologia, tratando tudo sem pressas ou desleixos narrativos, mostrando vigorosamente que as coisas que acontecem na nossa infância tendem a moldar a nossa personalidade, as nossas vidas, carreiras e sonhos, conseguindo ainda ser – tal como “Lovers Rock” e “Alex Wheatle” – o pedaço mais esperançoso desta moldura profundamente humana, social e política fotografada por McQueen com toda a paixão e know-how.
Na verdade, e depois de ver os cinco capítulos deste projeto, “Small Axe” revela ser um objeto cinematográfico extremamente sólido, que não só funciona isoladamente em cada um dos seus capítulos, mas como um todo na sua árdua (e ainda incompleta) tarefa de narrar as adversidades que homens e mulheres de origem caribenha tiveram numa sociedade que nunca olhou para eles lado a lado, mas de cima para baixo. Que venham mais, pois a descolonização da mente ainda agora começou.




















