A afirmação é óbvia e uma referência clara ao grande sucesso que foi a comédia de 2011 (Untouchables) que juntava um branco rico e paraplégico (François Cluzet) e um negro desempregado (Omar Sy) numa aventura confortante.

Reis da “comédia social”, tão em voga no cinema gaulês, Toledano e Nakache voltam a usar a mesma gímnica neste Especiais, ou seja, inspiram-se em personagens reais aparentemente distantes (um judeu e um muçulmano) e entregam através de doses moderadas de drama e comédia a história de aqueles que tapam os “buracos” que o estado social não consegue suprimir.

Bruno (Vincent Cassel num registo diferente ao habitual) é inspirado em Stephane Benhamou, um homem que dedicou a sua vida à empresa que fundou para cuidar de casos extremos de autismo, e que acompanhou ao longo dos anos um membro da família de Toledano. Já a personagem de Malik (Reda Kateb, como sempre impecável), que treina jovens problemáticos a serem cuidadores, inspira-se em Daoud Tatou, figura que os cineastas conheceram quando fizeram uma curta-metragem para angariar fundos para Stephane. O “gatilho” da ação é também ele real, quando a associção de Stephane foi investigada em França, em 2017.

A grande diferença por aqui em relação a Amigos Improváveis é que as escolhas estéticas e a abordagem narrativa do filme assentam numa espécie de docudrama (a sequência inicial dá o mote), até porque muitos dos atores secundários são autistas, todos com uma incapacidade enorme de se ligarem ao mundo e às suas normas, dificultando seriamente a ligação emocional que espectador [fora da esfera do mundo do autismo] eventualmente possa criar com eles – algo que certamente num registo mais ficcional e dramatúrgico conseguiria. Pensem em Rain Man, por exemplo, um filme moldado também em duas figuras muito diferentes, mas que criam uma empatia ascendente à medida que o filme avança num enredo de autodescoberta, compadrio e amor fraterno.

Por sua vez, os Especiais é todo ele um filme de compromisso, não de descoberta pessoal, mas que nunca se sente como sacrifício, nem de uma tentativa desesperada de obter reconhecimento, para além do legal. Por isso mesmo, sem recorrer à excessiva dramatização, manipulação e outros tiques tão comuns nas comédias sociais francesas (moralismo em destaque), o filme nunca verdadeiramente se cola à nossa pele, nem estimula as nossas emoções primárias, facilmente adquiridas no filme de Barry Levinson.

Essa ligação ao espectador comum é sim tentada através de pequenas histórias dentro da maior, como o fiasco dos encontros “amorosos” de Bruno, ou os desaguisados de Malik com um dos seus aprendizes, que por sua vez também se apaixona por uma enfermeira. É aqui, nestes subenredos, que reside a maior fraqueza do filme, pois o humor e o sentido de “comic relief” ao drama do dia a dia destes homens (mesmo que os atores remem contra a maré) nunca deixa os lugares comuns, como também já tínhamos sentido no filme anterior da dupla, o menos conseguido, embora curioso, O Espírito da Festa (2017).

Ainda assim, não é isso que desarma o filme de interesse, embora sintamos que falte algo verdadeiramente arrebatador que nos conquiste para além da história real que o inspira e os atores que tem.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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