James Franco arriscou, coisa rara em Hollywood, mas os tiros foram todos ao lado nesta adaptação da sátira da indústria cinematográfica nos anos 70 de Steve Erickson, que estreia com cinco anos de atraso e tal se sente na pele.

Nem vale a pena contar as referências (Dreyer, Wilder, Buñuel, Godard, Scorsese e por aí fora) e a incidência em Montgomery Clift e Elizabeth Taylor em Um Lugar ao Sol (1951), tatuado no couro cabeludo do nosso protagonista, pois o epicentro de tudo isto é Vikar (James Franco), um obcecado por cinema que procura na mesa de montagem deixar a sua marca, tarefa que aprende com Dotty (Jacki Weaver), cujo lema é “Que se Lixe a Continuidade”. Outra obsessão de Vikar é Soledad (Megan Fox hipersexualizada como era apanágio em 2014) e é por aí que se emaranham as linhas de uma misteriosa fábula de retalhos que se cose com alguma dedicação e com romance incluído mas com pouco ou nenhum engenho.
A sátira de filmes dentro de filmes poderia resultar num ensaio curioso, como por exemplo vimos recentemente em The Other Side of The Wind, de Welles, ou nas ironias de toque gangster de Barry Levinson, onde pontuam personagens bizarras e excêntricas como em Get Shorty. Porém, tudo por aqui neste Zeroville soa deslocado e a tiro no pé, mesmo que a quadrilha de atores presente envolva ainda Seth Rogen, Will Ferrell e outros que tais replicam as suas imagens de marca na era Judd Apatow (mais uma vez se sente o desfasamento do completar da obra e a sua estreia). E até a presença como cameos de alguns cineastas consagrados não dá um toque de midas num filme que procura poesia e amor ao cinema, mas revela-se apenas um mero veículo do ator/realizador revelar uma estranha e impaciente irreverência egocêntrica.
Franco não é um desastre de artista, mas este seu filme também não é um infortúnio ou um azar. É um objeto pensado em ser arriscado, mas feito por alguém sem pernas, estofo e bagagem para o preencher convenientemente com chama e arte para equilibrar narrativa, interpretações e escolhas técnicas cinematográficas.

Jorge Pereira

