«Le chant du loup» (Ameaça em Alto Mar) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Na tradição de filmes como Caça ao Outubro Vermelho e Maré Vermelha, Ameaça em Alto Mar pretende conduzir o espectador para um thriller nas profundezas, onde se joga com a fraternidade entre homens encerrados num espaço, a crença nas aptidões de um herói improvavel, e uma conspiração que ameaça criar uma guerra mundial e colocar todos em perigo.

É o tipo de filme que estavamos habituados a ver durante e logo depois da Guerra Fria, com os Russos como um perigo imediato [e recorrente], uma peça cinematográfica onde lealdade e o heroísmo servem de combustível para uma narrativa – a bem dizer – absurda, mas eficaz na tensão pela atenção ao detalhe que o antigo diplomata – transformado em realizador – Antonin Baudry impele, criando um verdadeiro exercício com algum engenho que dá primazia ao suspense psicológico em vez da pirotecnia militarista exacerbada.

Recheado de estrelas do cinema gaulês, onde não faltam Omar Sy, Mathieu Kassovitz e o sempre impecável e implacável Reda Kateb, Ameaça em Alto Mar traz nas suas entrelinhas o perigo do nuclear, mas sente-se frequentemente como um objeto deslocado no tempo, num claro piscar de olho dos franceses ao cinema de ação norte-americano, aparentemente sem grande identidade própria, mas eliminando muito dos piores clichés usados do outro lado do Atlântico e neste continente pelo mais americano dos realizadores franceses (Besson e a sua EuropaCorp.)

E mesmo que numa primeira parte o filme focalize a sua atenção no jovem Chanteraide, um prodígio conhecido pelas suas extraordinárias capacidades de distinguir qualquer som no fundo do mar (uma verdadeira arma numa guerra acústica), a segunda metade soa a um prolongado dèjá vu, uma atmosférica reciclagem do confronto iminente entre dois submarinos, sobressaindo aqui a qualidade de Kateb em criar personagens carismáticas que absorvem toda a atenção e relegam tudo o resto para segundo plano.

No final, já vimos este filme, mas a viagem pelos confins dos mares não foi totalmente um exercício de tempo perdido.


Jorge Pereira

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