Blinded by Ligth é um hit de verão que se esquece rapidamente

“Os anos 80 foram particularmente terríveis e ainda assim floreamos [a era] porque representavamos uma alternativa. A ganância corporativa tornou-se desenfreada (…) Ainda fico irritado com este tipo de coisas, o que é meio estranho porque a maioria das pessoas da minha idade, com quem eu cresci, não parece se importar mais.” Estas palavras não são de Bruce Springsteen, o músico em grande destaque neste Blinded By The Light [referência a um título do The Boss], mas sim de Robert Smith, líder dos The Cure.
A integração das declarações de Smith neste texto tornou-se obrigatória, pois se há coisa que a realizadora Gurinder Chadha faz neste seu filme [tal como tantas séries e filmes de hoje em dia] é descarnar o sentimento geral de uma década através de uma excessiva obsessão pelo visual (interessa retratar é os cabelos, maquilhagem, roupas, brinquedos, etc) que transformaram essa década numa peça de nostalgia do museu Kitsch do entretenimento atual.
Na verdade, Blinded By The Light não se esquece do drama do desemprego na Grã-Bretanha, no crescimento dos nacionalismos, frutos do liberalismo cego e tradicional de Margaret Tatcher, mas trata tudo de forma tão estilizada, apressada e superficial que nunca durante o filme se sente o verdadeiro cheiro do que foi a política da “Dama de Ferro”, responsável pela recuperação económica do Reino Unido, mas que no processo produziu gigantescas disparidades entre ricos e pobres, com a taxa destes últimos a mais que duplicar.
Mas isto não é um filme de Ken Loach, por isso o que a cineasta britânica de ascedência indiana faz é mais uma vez olhar para os “rebeldes com uma causa”, os tais “alternativos” que Smith falou. Neste caso, para um jovem que se apaixona (fica obcecado, convenhamos) com a música de Bruce Springsteen, entendendo-a como uma forma de lutar pelo sonho que tem em se tornar escritor. Não é novo terreno para Gurinder Chada, que já em Bend it Like Beckam, filme que lançou a carreira de Keira Knightley, explorava as dificuldades que muitos dos imigrantes de segunda e terceira geração tinham em fugir a destinos traçados pelos pais e pela sociedade. E antes desse filme de 2002, já o bastante superior Tradição é Tradição (East is East) tinha batido nessa tecla nos anos 90.
Assim, é fácil perceber que não há nada de novo por aqui a não ser uma reciclagem do sonho americano, que afinal é sonho global (pelo menos em Luton), tudo consideravelmente ensaboado e perfumado com as músicas do trabalhador que virou estrela rock. Mas se há coisa que Springsteen nunca foi, é alguém disposto a domesticar-se pela superficialidade para se transformar num crowd pleaser carregado de sentimentalismo.
Blinded by Ligth é isso mesmo. Um produto que retrata uma época dura e uma história familiar complexa com a ligeireza e a forma de uma canção pop destinada a vender para as massas e ser um sucesso de verão. Se virmos bem, os pontos todos estão lá: o jovem paquistanês sob pressão parental que ambiciona algo mais; o amor adolescente entre raças; a paixão por um ídolo e arquétipo para a vida (uma espécie de super-herói real que temos de seguir); o humor em sketchs clichés (algumas gags apresentadas parecem saídas da série Goodness Gracious Me); e um ritmo, fotografia e montagem que implodem os nossos sentidos, clareando e tapando a sombriedade da época.
Na verdade, Gurinder Chada está ela mesmo encadeada pela comercialidade do seu filme e a necessidade de agradar a tudo e todos, usando a música de Springsteen e reduzindo-o aos chavões e frases das suas músicas para – tal qual como num horóscopo – aplicar ao dia a dia de qualquer um. É cinema fácil, de consensos. De risos que amanhã se esquecem.

Jorge Pereira

