Um padre desencadeia uma série de eventos após aconselhar o Kamasutra a uma devota. O resto é uma comédia romântica previsível, mas que funciona pela sensibilidade do realizador na abordagem aos temas.

Comédia no cantão dos Grisões, na Suíça, Amur Senza Fin (Aperta Aperta Com Elas) tem um modelo esquemático e previsível que torna a experiência pouco original, mas a sua sensibilidade, balanço e algum arrojo na construção de personagens para a cápsula televisiva em que se insere (sim, é um telefilme que virou sucesso em Locarno e Toronto) tornam-no num objeto curioso que merece uma olhadela, nem que seja por ser o primeiro filme feito para a TV falado inteiramente em romanche (uma das quatro línguas oficiais da Suíça).
Nele seguimos uma pequena comunidade que é abalada quando um padre indiano que fez escala clerical na Alemanha chega ao local. As mulheres, casadas há muitos anos, mostram-se desesperadas com a falta de líbido dos maridos, os quais estão entregues entre a passividade total das suas vidas a relações extraconjugais. É num desses desabafos com o novo prior, que este aconselha o Kamasutra a uma das mulheres, facto que vai mudar a localidade para sempre e desencadear uma cadeia de eventos que vai levar a várias descobertas, algumas traições, novos amores, mas essencialmente vidas menos pacatas à que todos estavam habituados.
O realizador Christoph Schaub, premiado em Locarno em 2009 por O desaparecimento de Giulia, nunca esconde a sua postura e objetivo de criar um crowd pleaser, mas nesse processo não cai essencialmente nas piadas fáceis, no humor momentâneo padronizado e não ofensivo para agradar a todos, apresentando antes sim uma consistência narrativa e interpretativa num exercício que embora esquemático consegue ter algum arrojo. Nisto, sobressaem as atrizes Rebecca Indermaur como Mona e Tonia Maria Zindel como Giulia, as quais lideram um filme ligeiro e divertido, ideal para todos os fascinados pelas comédias românticas dos anos 90 que Nora Ephron assinava e Meg Ryan protagoniza.
Nota final para o título português, inspirado na música de José Malhoa. Um nome dos “diabos” dado pela distribuidora nacional, mas que encaixa bem numa comédia perfeita para a silly season que estamos a atravessar.

Jorge Pereira

