«Tony» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

O documentário sobre Tony Carreira poderia ter 20 ou 30 minutos a menos, mas embora diga mais aos fãs não é de todo perturbante ou fastidioso para os outros.

É curioso que o documentário português seja um dos géneros mais agraciados lá fora nos festivais de cinema, mas que – sintomático de todo o cinema nacional – raramente chegue comercialmente a muitas salas nacionais, ficando-se normalmente pelos nichos de exibição (uma sala aqui e ali) ou integrado em tournées educacionais e exibições em cineclubes.

Tony, que passeia de mão dada com o fenómeno Tony Carreira, é um raro exemplo de um documentário nacional que vai ser exibido em mais de uma dezena de salas em pelo menos 16 cidades portuguesas. Assinado por Jorge Pelicano, talvez o documentarista português mais lúcido (comercial?) na apresentação do género para um público mais vasto, Tony é uma viagem ao universo do cantor Tony Carreira, desde os primórdios em que era apenas mais um emigrante em França, até começar a tocar numa banda, passando pelos seus primeiros sucessos e inspirações, não esquecendo os escândalos (plágio), e culminando naquele que seria (será?) o seu último concerto, no Altice Arena.

Este é um filme onde não falta um retrato sensível dos fãs, alguns deles obcecados, convenhamos, mas não diferentes de muitos os que seguem clubes de futebol ou até as procissões de fé pelas estradas nacionais a caminho de Fátima. Eles seguem-no para todo o lado que vão (em especial o grupo do Algarve), alguns deixam mesmo de comer para fazer essa vida, mas essencialmente vêm nele – e nas suas letras – o antidepressivo perfeito para as suas existências. É também – acentuadamente – um filme sobre o preconceito, não apenas em relação ao que o cantor enfrentou ao longo da carreira, mas igualmente na visão global que todos têm em relação aos seus fãs, agrupados num registo de “azeiteiros” por todos aqueles que afastam a sua música do registo de música ligeira romântica e o inserem em mais uma “pimbalhada” nacional.

Pelicano, responsável pelo ótimo Pára-me de Repente o Pensamento e o bem conseguido Até que o Porno nos separe, excede-se no material que usa, acrescentando 20 a 30 minutos a um filme que poderia efetivamente ser mais curto e conciso, mas não passeia, nem executa, esta obra como um produto oficial da marca e símbolo que Tony se tornou. Não, isto não é um best of, um hit parade ou até mesmo um making off floreado sobre uma carreira artística de altos e baixos, mas uma peça que apesar de revelar fascínio pelo fenómeno que segue, não se emoldura na previsibilidade e clichés que os próprios intervenientes por vezes caem nas suas narrações. E mesmo não nos satisfazendo por completo com a questão do plágio (mais por culpa de um produtor cubano associado ao escândalo que despacha o tema de forma apressada e incoerente), Tony não se limita a mostrar o bom e o belo, mesmo que na sua atmosfera e tom tenhamos sempre aquela história do “underdog” que superou tudo e todos e triunfou.

Por tal, e tentando sempre procurar imagens inéditas da carreira do cantor, fugindo assim ao uso de imagens de arquivo, nomeadamente as televisivas, Pelicano constrói uma biografia documental interessante, que embora vá dizer muito mais aos fãs do cantor, não é de maneira nenhuma perturbante ou fastidioso para todos os outros que assistem.


Jorge Pereira

Últimas