«The Lion King» (O Rei Leão) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Um “upgrade” tecnológico vazio em novas sensações e emoções

Quando estreou em 1994, a animação O Rei Leão era um marco para a Disney. Segundo os estúdios na época, esta era a primeira história original da Casa do Rato Mickey, um produto que não era uma adaptação de um conto, livro ou outro tipo de obra. Na época, os responsáveis falaram que a sua inspiração era a história bíblica de José e Moisés, o incontornável Hamlet de Shakespeare, e o famoso Bambi da própria Disney. Mal estreou, surgiram relatos sobre a possível cópia do anime japonês Kimba, O Leão Branco, mas essas comparações morreram na praia devido aos altos custos legais que impediam o estúdio japonês de levar a gigantesca empresa norte-americana aos tribunais [leia aqui a história completa].

Vinte e cinco anos depois, e no auge das adaptações em imagem real da empresa a filmes seus [tudo começou com o mega sucesso de Alice no País das Maravilhas], a Disney lança uma nova versão do filme, tecnicamente soberba como se impõe nos dias que correm, e carregada de nostalgia capaz de atrair os fãs do original, muitos deles com filhos a quem querem mostrar “algo” das suas próprias infâncias.

Compreenda-se que o filme de animação original, executado já num período em que a Disney tinha renascido após alguns desaires nos anos 80, sobrevive muito das memórias infanto-juvenis de muitos, sendo elevada pelos próprios, em termos de qualidade e da sua importância para a época, por isso mesmo. Logo em 1995, a Disney sofreria temporariamente um novo sismo, com o surgimento da Pixar (que viria a comprar anos mais tarde), o estúdio que efetivamente abalou o cinema de animação da década [e mais tarde os Ghibli, após o sucesso internacional em 1997 de A Princesa Mononoke), tornando os produtos da Casa do Mickey novamente obsoletos e a precisarem de uma nova reinvenção e calibragem.

Embora esse Rei Leão (1994) primasse por um jogo de cores excecional, uma banda-sonora memorável (muito por culpa de Elton John) e temáticas capazes de criar uma enorme ligação sentimental ao espectador [a perda paterna, a injustiça, a perseverança, a amizade improvável entre os “nobres” e os excluídos da sociedade], na época – e fora a criançada – a fita era vista como um objeto de algum interesse para os adultos, os quais vibraram, isso sim, um ano depois, com Toy Story.

Não havendo assim – e por aqui – qualquer nostalgia ou real fascínio pelo original, assistir a este remake/quase cópia não trouxe qualquer sentimento particular, com exceção da ausência notada da voz de Jeremy Irons como o tenebroso Scar, Leão que ambiciona o trono e que orquestra um esquema com um grupo de hienas para afastar o atual Rei, Mufasa, e o filho deste, Simba, do trono.

A verdade é que existe uma tentativa de dar maior autenticidade a todo o conceito (em especial na apresentação dos elementos africanos), quer na apresentação magnânima e mística da paisagem – inspirada nas savanas quenianas -, nos artifícios da linguagem, etc, mas emocionalmente e narrativamente, este é um filme que apenas vai surpreender quem nunca viu o original. A temática shakespeariana (de querelas pessoais e jogadas políticas), nivelada com camadas e camadas emocionais de relacionamento pai-filho, volta a ser a sua grande mais valia, e a musicalidade – que aqui soa a remixagem – remete para o filme anterior sem melhorar nem piorar, mas é na tal técnica hiper realista na sua construção como objeto fílmico (uma nova animação tecnologicamente avançada) que reside o seu maior fulgor e interesse.

Mas bastará este “update” técnico para nos convencer a ver um filme sem qualquer arrojo ou criatividade em inovar para além do que já tinha sido mostrado no original? Não basta e por isso mesmo este Rei Leão soa a uma manobra meramente industrial para repescar/revitalizar um produto pronto a ser vendido nas mais variadas formas, seja num cinema, no home-vídeo, numa futura plataforma de streaming (olá Disney +) ou no licenciamento de merchandising nas suas milhares de formas possíveis. E assim foi com Alice, Cinderella, Maléfica e o próprio Aladdin. Upgrades para encher o olho, mas vazios de novas sensações e emoções nas histórias.


Jorge Pereira

Últimas