Histeria em massa e uma caça às bruxas em plena década de 1980 são o foco deste Demonic.

Já em 2015 a australiana – que leciona nos EUA – Pia Borg tinha mostrado que a psiquiatria era um tópico que a fascinava através da curta Abandoned Goods, um pequeno ensaio que reunia obras de arte criadas por pacientes detidos no hospital psiquiátrico de Netherne (Reino Unido) entre 1946 e 1981.
Neste Demonic, Borg viaja até ao pânico satanista nos EUA na década de 1980 (mas que se estendeu nos 90′ com artifícios psicológicos como a “Regressão” a alimentarem as pessoas de falsas memórias), época em que muitas pessoas ficaram cada vez mais preocupadas com as conspirações satânicas espalhadas pelos Estados Unidos, temendo particularmente que as crianças fossem um alvo físico e psicológico destes inimigos não tão diferentes dos moinhos de vento com quem Dom Quixote lutava.
Misturando imagens arquivo, animação e reconstrução de cenas, a cineasta de Melbourne revisita esse movimento de histeria em massa, produzindo um híbrido entre o documentário e a ficção que expõe a complexidade dos casos, as análises a métodos psiquiátricos, um estudo da própria comunicação social, e a construção de falsas memórias na psique das alegadas vítimas.
É um exercício profundamente atmosférico de uma negritude continua (códigos do cinema de terror e thriller psicológico) – tão surreal, doentia e stressante como fascinante na observação do comportamento humano levado pela histeria e o pensamento de manada.
Destaque para a direção de fotografia de Maxx Corkindale e a montagem de David Scarborough, que servindo como pilares a rios de factos registados e bem orquestrados por uma cineasta e artista visual de primeira linha nos fazem desejar a todo o custo que o seu próximo trabalho chegue bem rápido. Seja ele curto ou longo.
Absolutamente a não perder.

Jorge Pereira

