Remake de um remake com praticamente nada que o evidencie

Remake da comédia protagonizada por Michael Caine e Steve Martin, Ladrões e Cavalheiros (1988), que por sua vez já era uma nova versão de Os Sedutores (1964), que contava com David Niven e Marlon Brando nos principais papeis, The Hustle (As Vigaristas) coloca no seu duo de atrizes, Anne Hathaway e Rebel Wilson, a tarefa de “entreter” o espectador durante hora e meia através de gags personalizadas, humor slapstick e um enredo desinspirado e cansado – demasiado agarrado ao original – para ter qualquer ponta de imprevisibilidade.
Por outro lado, o filme falha também no trabalho das atrizes. Hathaway passeia através de múltiplos vestidos um charme de trafulha de elite, enquanto Rebel Wilson é a eterna desengonçada de nível mais baixo que vai colidir com a primeira por estar a invadir-lhe o território onde ela prepara golpes a homens com dinheiro.
Na verdade, por culpa de Wilson ou da indústria do cinema (ou dos dois), a atriz estende sempre em todos os seus papéis aquele que a popularizou em Pitch Perfect. Aqui, tal como em todos os seus trabalhos, ela volta a ser trapalhona, a basear as suas piadas na fisicalidade (twerking, escorregar, cair, bater contra portas), algo que funcionava muito bem nos anos 80, ou em sketchs isolados do musical referido, mas que agora soa a tão obsoleto como os ridículos sotaques forçados de Hathaway. O mais interessante disto tudo, é que provavelmente Wilson – tal como Melissa Mccarthy – um dia destes vai aceitar um papel dramático, vai estar bem e vai ser nomeada a tudo e mais alguma coisa por uma suposta reinvenção após a exaustão da sua fórmula antiga (que já se esgotou há 2 ou 3 filmes atrás).
Efetivamente, existe muito pouca perspicácia no trabalho das personagens e no humor generalizado aqui usado, algo que também já se sentia no filme dos anos 80, mas a desculpa do produto escapista não pode ser utilizada pela redundância de tudo o exibido. O facto também de se dar a uma história que era essencialmente masculina uma lavagem feminista no elenco e no guião, não trouxe nenhuma mais valia ao produto final, tornando este mais um daqueles casos em que mau cinema e más histórias serão sempre más se a única mudança se reflete apenas nos peões em cena.
Na essência, em As Vigaristas falta acutilância, criatividade, uma verdadeira linha de transgressão que vá além do produto descartável de entretenimento básico, e essencialmente contemporaneidade (não apenas no update de tecnologia ou das trends da época), principalmente no estilo de humor, pois este mostra-se ultrapassado ou destinado apenas a uma segunda linha de Hollywood, ou seja, digna do antigo mercado de videoclubes ou do VOD atual.

Jorge Pereira

