
Já nos habituámos a ver Sacha Baron Cohen como um tio que num jantar de família conta piadas atrevidas, só que com muito, muito detalhe. Irmãos e Espiões é o seu quinto filme enquanto argumentista e continua a provar que o ator se mantém, felizmente, a marimbar para o que é considerado o politicamente correto, questionando, mais uma vez, o limite do suportável, enquanto provoca as mentalidades portadoras de nem que seja uma unha de conservadorismo (e não foi essa mesma faceta sociológica que trouxe toda a atenção mediática a Borat?).
A Grimsby do título original é uma cidade inglesa que viu os dois irmãos crescerem e serem separados por um acaso do destino. 28 anos mais tarde um é agente do MI6 (Mark Strong) e o outro um hooligan febril de futebol, pai de 11 filhos (Baron Cohen). Outro acaso permite então reuni-los e vêem-se forçados a tentar desmantelar uma rede terrorista, ao mesmo tempo que fogem da própria agência de espionagem britânica. Uma fuga que inclui violações em série por elefantes, sedução de empregadas de quarto obesas e ainda Donald Trump a tornar-se seropositivo.
O interesse de Baron Cohen não recai tanto em parodiar os filmes de espionagem, mas sim em fazer um filme de ação (Louis Leterrier, realizador da saga Transporter e do remake do Incrível Hulk é quem se senta à cadeira desta vez, dando até liberdades com a câmara de filmar, que incluem diversas sequências de tiroteio feitas em plano subjetivo, daquelas que estamos mais acostumados a ver em videojogos FPS), só que mais (e cá vai o termo outra vez) atrevido. Com isto avisa-se que alguns de gags podem ser encarados como de mau gosto (o ator faz aqui pelos habitantes de Grimsby o mesmo que fez em Borat pelos cazaques… e isso diz muita coisa) e que o que se vê nas manobras publicitárias são alguns dos poucos momentos bem-educados que estão presentes no filme. Mas, trata-se de um desempenho delicioso para quem aprecia o circo de menino malcomportado do ator. É curioso e aliviante por ver que, apesar de se ter tornado demasiado conhecido para fazer dos seus falsos documentários, Baron Cohen não tenciona deixar de fazer inimigos. E é de chorar a rir com isso.
O melhor: O humor, muitas vezes, provocante.
O pior: Apesar de ser mais curto que as produções habituais, sente-se longo, o que em parte se deve às piadas não saírem muito do mesmo terreno.

Duarte Mata

