«Nymphomaniac – Volume 2» por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

 

Se há uma linha que separa o génio e a loucura – para Lars Von Trier essa linha transformou-se num nó impossível de desatar.

À segunda parte da odisseia que prometeu narrar a “história poética da jornada erótica de uma mulher, dos 0 aos 50 anos“, o espectador é confrontado com níveis de violência física e psicológica superiores à parte I, numa metade que promete ser ainda mais divisiva, mas também, para quem conseguir manter-se na corrente, ter finalmente um clímax provocador à altura das quatro horas que o antecederam.

A torrente de referências, quer inventadas (ou escutadas num passa-a-palavra), quer historicamente fundamentadas, também prossegue, de virgens muito especiais até à técnica do “pato silencioso”, de pistolas famosas a nós perfeitos.

Os momentos de piscar o olho ao espectador, de auto-justificação, e até uma outra potencial auto-bajulação/duplicidade de sentidos (será que Von Trier não se está a pôr no mesmo pedestal do visionarismo de Beethoven, ou estaremos nós a ler muito no filme?) também permanecem, como “imagem de marca” do próprio realizador. Assim como são os diálogos que falam de temas sérios de foma aparentemente infantil – mas um infantilismo que nos questiona verdades supostamente inquestionáveis, e que acaba por nos desarmar na corretude de muita da sua cadeia de pensamento aparentemente “erratica”. Maldito seja, Lars.

Quantos aos atores, e conforme esperado, Charlotte Gainsbourg atinge aqui momentos de entrega à sua personagem desconfortáveis; Shia LaBeouf, já totalmente libertado da imagem Disney, tinha aqui reservado o seu melhor momento dramático, e se há um pequeno pormenor a apontar contra o filme, é a substituição deste por um outro ator na versão mais velha da personagem; e Jamie Bell é convenientemente intimidante no retrato do espancador profissional K.

Podendo olhar finalmente para projeto como um todo agora, Nymphomaniac corresponde mesmo ao píncaro de génio e loucura de um “enfant terrible” que se recusa a moderar-se, e ainda bem – para o bem/mal de todos que entrem em contacto com ele, e para o bem supremo de uma Sétima Arte que se quer sempre desafiante e visionária.

O melhor: O génio louco de Von Trier. A entrega dos atores. A ousadia do final.
O pior: Um pequeno pormenor de casting.


André Gonçalves 

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