
De Lars Von Trier sentimos que já vimos tudo, de um clítoris cortado até ao mais belo e deprimente fim do mundo. Mas Nynphomaniac, a sua mais recente obra de catarse, consegue manter a onda de choque, envolta de um poderio total sobre quem vê.
Ainda antes de Joe, a sua personagem titular, proferir “Descobri a minha cona aos dois anos”, o espectador é posto à prova. Durante o que parece ser um bom par de minutos vemos um ecrã negro, vazio. Ouvimos água a escorrer, entre outros ruídos ambientes. Finalmente, vemos o que ouvimos, e do nada surge a música de Rammstein, e com ela o encontro entre um “falso judeu”, ou como o próprio chama, um “judeu sentimental”, de nome Seligmann (Von Trier, ainda martelado com a questão anti-semita em Cannes, a mostrar o seu dedo do meio) e Joe, a ninfomaníaca. Após ter encontrado Joe estendida e ensanguentada na rua, oferece-lhe guarida, e um ouvido para a história que ela (e o filme) têm para contar.
Narrada em capítulos, como vem sendo uma marca do realizador desde os tempos em que co-fundou o movimento Dogma, acompanhamos uma odisseia com o condão insano/genial de misturar sexo, pesca, Fibonacci e Bach. Isto tudo, claro, temperado dos habituais comentários corrosivos à religião, ao feminismo, e à divisão de castas.
Visualmente, Von Trier parece ter descoberto um equilíbrio magnífico entre o estilo Dogma que tanto acalentou (ainda manifestado em close-ups e potenciais improvisações) e uma contemplação cinemática da natureza marcada novamente pela presença do cinematógrafo Manuel Alberto Claro (Melancholia). E em termos narrativos, Nynphomaniac vence os seus imediatos predecessores, não só a revelar novos paradigmas (todas as associações acima citadas), como a fazê-lo de forma mais… madura, em toda a sua insanidade aparente.
No campo das representações, o destaque para já vai inevitavelmente, e para não variar, para as mulheres, exploradas ou por explorar: sobretudo a grande descoberta de Stacy Martin enquanto a jovem Joe, e uma memorável aparição de Uma Thurman, no papel de Mrs. H, que numa só cena, demonstra toda a teia complexa de escárnio, (auto-)sátira, vergonha alheia, e drama intimista sobre insensibilidades humanas, que circula na cabeça de Von Trier ao longo de 20 anos de carreira. Charlotte Gainsbourg deverá ter o trabalho mais duro para a segunda metade, presume-se.
Para primeira parte de uma obra que promete marcar com mijo o panorama cinematográfico atual, deixa-nos a desejar. No melhor dos sentidos. Que role a segunda metade.
O melhor: Lars a ser o génio insano que é, e a atingir aqui novos patamares de criatividade.
O pior: A divisão em duas partes. Este espectador sugeria um intervalo a Lars e aos produtores. (Embora Lars saiba como acabar a sua metade, convenha-se)

André Gonçalves

