«Stories We Tell» (Histórias que Contamos) por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Haverá cineasta atualmente mais investida em explorar o lado humano e cruel (pela sua humanidade, pelo seu comportamento errático, helás!) das nossas relações, numa espécie de “infidelidade natural”, que Sarah Polley? É sempre a sensação que me dá ao acabar de assistir a um dos seus filmes. Dela já tínhamos visto este ano o subestimadíssimo Take This Waltz, uma das grandes obras deste ou do ano em que efetivamente estreou, e agora chega-nos, a tempo e horas, um igualmente recomendável Histórias Que Contamos.

Geralmente sou avesso a documentários baseados puramente em entrevistas/depoimentos, mas este Histórias Que Contamos não é definitivamente o típico documentário ao estilo “60 Segundos“. Em vez de pegar num tema externo e atual, a realizadora, atriz e argumentista Sarah Polley pega no seu próprio passado familiar e dá uma pequena reviravolta a um género que há muito precisava de novas abordagens.

Dando-nos sempre conta propositadamente do registo gravado, com bastidores e cenário misturados na mesma película, o filme começa com um quase memorial e aos poucos vai adquirindo uma estrutura de thriller, a partir do momento em que nos apercebemos que Polley descobriu há uns anos atrás que o homem que cuidou sempre dela poderá não ser o seu pai biológico… Compreendemos, mais do que nunca, a obsessão da atriz-barra-argumentista-barra-realizadora pela infidelidade conjugal, e pelo poder transformador do tempo, visto de forma tão belas nas suas anteriores longas-metragens.

Não é uma história propriamente nova, e Polley também não pretende fingir que é pelo contrário, pretende universalizá-la e mostrar-nos pontos de contacto com a nossa própria mísera história. O seu modo de reunir todos os protagonistas e secundários – basicamente família e amigos desta – e pô-los a contar as suas versões também não. Mas a mistura entre uma história destas e o método honesto e próximo de filmagem é definitivamente algo que ainda não tinha visto.

Histórias Que Contamos acaba por ser tão universal nas suas verdades difíceis sobre a fidelidade, o amor e a memória como refrescante num registo à partida aborrecido. Temos oficialmente cineasta.

O melhor: O olhar de Sarah Polley, de dentro para fora.
O pior: Ainda não quebra bem “a quarta parede” do registo documental, apesar de ser dos documentários mais originais do ano.


André Gonçalves

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