«Parkland» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Se há tema que quase não precisa de desculpas para ser abordado novamente no cinema nos Estados Unidos é a morte do presidente John Fitzgerald Kennedy, a eterna pedra no sapato dos norte-americanos. Entre filmes realistas, idealistas e outros mais conspiracionistas, eles vão batendo na mesma tecla, esgotando normalmente fórmulas e decididamente não acrescentando nada de palpável (com reais consequências) para o caso. Talvez o filme de maior impacto sobre a temática seja mesmo o trabalho de Oliver Stone, obra que tentou – ao jeito típico do cineasta – enfatizar a via da conspiração, numa visão tão interessante em termos técnicos e artísticos quanto amargurada e derradeiramente frustrante nas conlusões.

Já este Parkland, que vai buscar o seu nome ao hospital onde Kennedy foi assistido logo após ser baleado, afasta-se dos cenários de investigação em torno do caso e prefere seguir um conjunto imenso de personagens ditas invisíveis nesse dia fatídico. Entre estas incluem-se membros da equipa médica que deu os primeiros socorros a Kennedy, os agentes do FBI que deixaram o principal suspeito do crime escapar (quando o tiveram nas mãos dias antes), os familiares mais próximos de Lee Oswald e até um homem que possuía documentado em fita o momento dos disparos.

É nessa aproximação diferente que Parkland tem o seu maior trunfo, mas também aqui reside a sua maior fragilidade. É que, se por um lado este mover da câmara para os que estavam ao lado dos acontecimentos até acaba por ser uma lufada de ar fresco, por outro o filme não chega nunca a dar uma grande profundidade a essas mesmas personagens, com consequências naturais na atenção e interesse do espectador. Em vez disso, ganhamos sim uma maior noção do caos que se abateu sobre o conjunto de pessoas que nitidamente não estava preparada para fazer o seu luto e que na maioria dos casos ainda não tinha interiorizado o que realmente aconteceu. A melhor cena é mesmo quando, no hospital, se tem de pronunciar oficialmente morto o presidente.

Assim, mesmo com interpretações seguras e uma realização tecnicamente competente de Peter Landesman, Parkland acaba por ser um cartucho de pólvora seca pois, apesar de captar a nossa atenção pelo ruído, não deixa marcas para cicatrizar. Esperava-se mais de alguém que para além de realizador já foi jornalista…

O Melhor: A demonstração do caos
O Pior: Sabemos mais dos invisíveis do que aquilo que imaginávamos?


Jorge Pereira

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