É no seu naturalismo e simplicidade que Tir, o vencedor do Festival de Roma, tem os seus maiores trunfos. Na base desde docudrama temos Branko (Branko Zavrsan), um antigo professor transformado pela ordem económica e recessão atual num camionista, profissão onde ganha muito mais dinheiro, mas onde igualmente sofre diversas consequências na sua vida. A esposa está longe e o único contacto que tem com ela é através do telefone, naqueles que chegam a ser os momentos mais marcantes e emotivos desta longa metragem, pois no final das contas a profissão que este homem escolheu para viver melhor é aquela que o afasta daqueles que lhe são mais próximos, patrões incluídos.
Nada disto está estabelecido quando o filme começa e apenas vamos entendendo à medida que a ação avança. Ao nos levar nesta jornada, o italo croata Alberto Fasulo submete-nos por alguns atalhos de forma a fugir a uma tendência do cinema mais realista [e muitas vezes documental], que é transpor o cansaço e o tédio da nossa personagem para o espectador em doses semelhantes. Ainda assim, o cineasta consegue transportar o espectador para a vida deste homem cuja vida está repleta de rotinas, situações precárias, pressões laborais e derradeiramente uma sensação de impotência e frustração.
Tir é assim um filme de paradoxos da sociedade atual. Se no passado nos venderam a ideia que devíamos estudar para ter uma vida melhor, agora descobre-se que se precisa de muito mais para simplesmente sobreviver, sacrificando-se mesmo a vida pessoal, o tempo com os filhos e amigos, tudo em busca de uma jorna para que estejamos – pelo menos- com a cabeça fora de água.
Uma nota final para o ator Branko Zavrsan, ele que já tinha dado nas vistas em No Man’s Land. A forma natural com que se entregou a este papel demonstra muito trabalho de ator e que neste caso incluiu meses de trabalho real como camionista e até o mérito de ter tirado a carta de pesados para melhor desempenhar o seu papel. Esperam-lhe algumas premiações na rota dos festivais
O Melhor: Simples, direto e eficaz
O Pior: A incapacidade que sentimos no final do filme em mudar as coisas.

Jorge Pereira

