É manifestamente impressionante este segundo trabalho nas longas-metragens do iraniano Shahram Mokri. Filmado num longo e fabuloso plano sequência e inspirado numa peça jornalística sobre um restaurante da província que servia carne humana, Fish & Cat é um poço de tensão, imaginação, surrealidade e beleza, sem que para isso precise derramar litros de sangue ou tenha sequer violência explicita.
Na verdade, Mokri – bem apoiado por Mahmud Kalari (Uma Separação) na cinematografia e Christophe Rezai na banda-sonora (minimalista) – prefere seguir as suas personagens de câmara atrás, como se de uma alma penada se tratasse, preenchendo percursos, vendo interações e diferentes pontos de vista da mesma cena, numa verdadeira tour de force que funde magistralmente o experimentalismo com elementos que o espectador já enraizou e que fazem parte das convenções do horror (como o som, elementos que desaparecem, etc).
Na essência, e pensando bem, temos todos os elementos para um slasher cortante: um grupo de jovens, um acampamento numa zona isolada, um par de vilões que carrega consigo carne e ainda algumas personagens tão bizarras, como surreais, como um par de gémeos sem um braço e até um jornalista «fantasma». Catalogar a obra poderá ser um erro, mas há aqui mais dos filmes de horror dos anos 70 que das décadas que se seguiram, bem como alguns tiques de intriga muitos presentes quer no cinema turco recente (especialmente em obras de Nuri Bilge Ceylan, Emin Alper, Ugur Yucel, Ali Aydın), quer nos próprios indies americanos. Tudo isto é ainda preenchido com pequenos dramas das personagens e ainda com algumas narrações de histórias fora de contexto que apesar de não terem uma grande relevância para a história per se, adensam camadas de misticismo e contribuem para o espectador manter-se constantemente em bicos de pés à espera do pior.
O Melhor: Quando as convenções encontram o experimentalismo
O Pior: Poderia ser ligeiramente mais curto, mas provavelmente não teria tanto impacto como teve

Jorge Pereira

