«A Glimpse Inside the Mind of Charles Swan III» (Dentro da Cabeça de Charles Swan III) por Nuno Miguel Pereira

Ser filho de Francis Ford Coppola não deve ser fácil. Ser da família e querer ser realizador, ainda trás mais dificuldades acrescidas. Sofia (Coppola) conseguiu se livrar do início de carreira, com o pé esquerdo (Padrinho: Parte III), e tornar-se realizadora. Melhor que isso, tornou-se uma realizadora com uma marca própria. Aparentemente, algum talento é hereditário (se não contarmos com o sobrinho Nicolas Cage). Roman Coppola, seu filho, parece seguir a regra da hereditariedade do talento. Pelo menos no que toca a escrever (Moonrise Kingdom e CQ). No entanto, a uma boa ideia deve estar associado um bom desenrolar de ações. Infelizmente, em Dentro da Cabeça de Charles Swan III, apenas existem boas ideias, sem a concretização numa boa obra.

Aqui, Roman pegou na figura de Charlie Sheen para explorar a sua imagem. Uma espécie de psicanálise à mente de Charlie Sheen – perdão – Charlie Swan. Charlie é um desenhador, a viver um momento complicado na vida profissional e, especialmente, amorosa. Aliás, o facto de tudo estar a desabar à sua volta deve-se a um “rabo de saias“. Charlie namorava com Ivana (Katheryn Winnick), uma mulher substancialmente mais nova, que um dia o deixou. A partir daí, irrompeu numa série de comportamentos disruptivos, típicos da sua índole megalómana e misógina. Aparentemente, Charlie Swan é igualmente Charlie Harper (de 2 homens e meio), que acaba por ser Carlos Irwin Estévez (nome verdadeiro do Sr. Sheen).

Ora, se a cena introdutória do filme auspicia algo de bom e original, depois partimos para uma série de sequências, do género sketches, profundamente desligadas. A ideia de contar uma história, usando a mente alucinógena de Charlie, seria um excelente ponto de partida. Porém, esta foi abandonada a partir do meio do filme, onde a narrativa retoma num tom profundamente padronizado, culminando num final totalmente chavão.

No meio disto tudo, Roman acaba por não aproveitar o talento do seu primo (Jason Schwartzman), que interpreta o melhor amigo do protagonista. Para além de tornar Bill Murray num objeto ornamental.

Assim, no início fomos convidados para uma psicanálise profunda e alucinógena à mente de Charlie. No final estamos perante uma história sem um fio condutor, sem piada, sem conseguir ser séria e profundamente superficial.

No meio disto tudo, temos ainda oportunidade de ver Charlie e Ivana cantar Tom Jobin e Elis Regina, com um sotaque…

Apesar dos pesares, a banda sonora de Liam Hayes é bastante interessante, sendo o que mais se destaca num filme que tinha tudo para ser uma droga pesada e acabou por ser uma aspirina com coca-cola.

O melhor: A banda sonora e a ideia inicial do filme.
O pior: Não tem fio condutor, muito superficial, péssimo final.


Nuno Miguel Pereira

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