Ser filho de Francis Ford Coppola não deve ser fácil. Ser da família e querer ser realizador, ainda trás mais dificuldades acrescidas. Sofia (Coppola) conseguiu se livrar do início de carreira, com o pé esquerdo (Padrinho: Parte III), e tornar-se realizadora. Melhor que isso, tornou-se uma realizadora com uma marca própria. Aparentemente, algum talento é hereditário (se não contarmos com o sobrinho Nicolas Cage). Roman Coppola, seu filho, parece seguir a regra da hereditariedade do talento. Pelo menos no que toca a escrever (Moonrise Kingdom e CQ). No entanto, a uma boa ideia deve estar associado um bom desenrolar de ações. Infelizmente, em Dentro da Cabeça de Charles Swan III, apenas existem boas ideias, sem a concretização numa boa obra.
Aqui, Roman pegou na figura de Charlie Sheen para explorar a sua imagem. Uma espécie de psicanálise à mente de Charlie Sheen – perdão – Charlie Swan. Charlie é um desenhador, a viver um momento complicado na vida profissional e, especialmente, amorosa. Aliás, o facto de tudo estar a desabar à sua volta deve-se a um “rabo de saias“. Charlie namorava com Ivana (Katheryn Winnick), uma mulher substancialmente mais nova, que um dia o deixou. A partir daí, irrompeu numa série de comportamentos disruptivos, típicos da sua índole megalómana e misógina. Aparentemente, Charlie Swan é igualmente Charlie Harper (de 2 homens e meio), que acaba por ser Carlos Irwin Estévez (nome verdadeiro do Sr. Sheen).
Ora, se a cena introdutória do filme auspicia algo de bom e original, depois partimos para uma série de sequências, do género sketches, profundamente desligadas. A ideia de contar uma história, usando a mente alucinógena de Charlie, seria um excelente ponto de partida. Porém, esta foi abandonada a partir do meio do filme, onde a narrativa retoma num tom profundamente padronizado, culminando num final totalmente chavão.
No meio disto tudo, Roman acaba por não aproveitar o talento do seu primo (Jason Schwartzman), que interpreta o melhor amigo do protagonista. Para além de tornar Bill Murray num objeto ornamental.
Assim, no início fomos convidados para uma psicanálise profunda e alucinógena à mente de Charlie. No final estamos perante uma história sem um fio condutor, sem piada, sem conseguir ser séria e profundamente superficial.
No meio disto tudo, temos ainda oportunidade de ver Charlie e Ivana cantar Tom Jobin e Elis Regina, com um sotaque…
Apesar dos pesares, a banda sonora de Liam Hayes é bastante interessante, sendo o que mais se destaca num filme que tinha tudo para ser uma droga pesada e acabou por ser uma aspirina com coca-cola.
O melhor: A banda sonora e a ideia inicial do filme.
O pior: Não tem fio condutor, muito superficial, péssimo final.

Nuno Miguel Pereira

