«Wu xia» (Dragão) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Ver um filme deste género numa sala de cinema em Portugal é uma raridade, por isso os dois anos de atraso com que este Dragão chega a um ecrã (em Almada) acabam por ser um mal menor.

Assinado por Peter Chan, que já tinha passado nos nossos cinemas em 2009 com Warlords – Irmãos de Sangue, Dragão segue uma vasta tradição literária e cinematográfica em que o género wuxia é rei e senhor. Nele os seus heróis (e muitas vezes anti-heróis, especialmente na nova vaga de filmes wuxia que surgiram nos anos 60) são tão recomendáveis como aplaudidos, tanto pela forma como manipulam os seus poderes Chi – quer  por questões de promoção de saúde e longevidade, ou com o intuito de melhorar as habilidades de luta, usando para isso também estados transcendentais.

Se por um lado é inegável que Chan se inspira muito em filmes como One-Armed Swordsman, de Chang Cheh, por outro, e embora mais terra a terra, denota-se igualmente a influência de Tsui Hark [cineasta que redefiniu o género], especialmente na forma como este mistura a novela wuxia com uma história de detetives e a investigação de um crime [Hark fez isso inúmeras vezes, como em The Butterfly Murders e mais recentemente no franchise Detective Dee]. A isto somam-se sequências sensacionais de artes marciais, onde impera uma edição rápida e mudanças cortantes de género dentro da própria narrativa, mas que não são o foco da película, ao contrário do trabalho de investigação do nosso detetive  (Takeshi Kaneshiro, que já trabalhara com Chan em Irmão de Sangue).

Na base deste Dragão está Liu Jinxi (Donnie Yen), um pai de família e um homem trabalhador que após lutar contra dois violentos criminosos transforma-se no herói da aldeia. Embora o governador da província o caracterize como um herói até digno de cantares populares, Xu Bai-Jiu, o detetive encarregue do caso, estranha como um homem tão pacato e trabalhador do papel como Jinxi possa ter derrubado dois dos mais perigosos bandidos na China da década de 1910 (mais propriamente em 1917). Na realidade, Xu Bai-Jiu é uma personagem verdadeiramente noir, um descrente na humanidade e na possibilidade de existirem bons homens, especialmente depois de ter sido envenenado quando acreditou e soltou um jovem no passado. É nesse ceticismo que assenta a sua investigação, que aos poucos vai revelando que Jinxi esconde algo no seu passado, um pouco como outras histórias de violência bem conhecidas no cinema ocidental, como o filme de 2005 de David Cronenberg.

O confronto entre Donnie Yen e Takeshi Kaneshiro é um dos elementos de maior valor nesta obra, que embora não seja – de todo – dos melhores filmes wuxia da última década, surpreende pela forma criteriosa como vai variando de tom e mostrando o lado negro das suas personagens sem nunca perder o interesse, ou cair no facilitismo.

É que se no início parecemos estar perante um drama wuxia rotineiro, rapidamente o filme passa para uma investigação policial apurada, cabendo ao último terço à reunião de todos os elementos num denselance intenso. Ao mesmo tempo, há o caprichar nas sequências de artes marciais, bastante bem conseguidas através das coreografias criadas pelo próprio Yen, e o mérito de expandir a transmissão ao espectador dos conceitos de aproveitamento e balanceamento da energia Chi.

Uma última nota para a belíssima cinematografia de Yiu-Fai Lai (Infiltrados), a dilacerante edição de Derek Hui (Man of Tai Chi) e o pulso firme de Chan, que no todo liga bem os elementos e constrói um filme de qualidade e com um grande poder de entretenimento.

O Melhor: O primeiro terço do filme é genial no seu foco crime/investigação
O Pior: Nada de relevante


Jorge Pereira

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