Percorrendo as ideias e o espírito de um dos artistas brasileiros mais importantes do séc. XX, recorrendo à própria voz gravada pelo próprio nas chamadas Heliotapes e a uma dúzia de filmes Super 8 que filmou na época [para além de muitos outros vídeos], no documentário Hélio Oiticica o espectador é conduzido pelo sobrinho do artista, César Oiticica Filho, pela vida, filosofias e ideias do criativo, numa obra vibrante, frenética e muitas vezes delirante onde o som e a imagem se fundem e caracterizam um criativo longe de qualquer padrão de rigidez. Isso é implícito logo no início, quando o próprio fala de José Oiticica (1882-1957), conhecido intelectual, professor, escritor, anarquista e seu avô, claramente uma das suas grandes influências.
Da infância e adolescência em que ele mesmo se define como intragável, passando pelo início da carreira junto ao Grupo Frente, ao surgimento do neoconcretismo, à criação dos Parangolés, Bólides, Penetráveis e com diversas instalações de sucesso no Brasil, em Londres e Nova Iorque, Oiticica permanece sempre num emocionante diálogo corrosivo e provocante com o espectador, onde nem faltam algumas explicações da sua ligação ao Tropicalismo e a movimentos de contracultura dos anos 60 e 70, época em que existem igualmente experiências com o cineasta Neville D’Almeida naquilo que apelida de quase-cinema.
A forma de proximidade e intimidade com que César Oiticica Filho trata todo o material que conseguiu reunir em dez anos de investigações está longe de cair na banalidade e, ao invés, talvez até aproveitando a dica dada pelo tio, transforma o frequente ensaio preguiçoso deste género de biografias/retratos em algo verdadeiramente inventivo que definitivamente honra o legado do artista, ainda mais que o do homem.
O Melhor: É vibrante
O Pior: Talvez por falta de material, há certos tópicos que mereciam maior aprofundamento

Jorge Pereira

