A sensação de começar um filme e não fazer a mínima ideia de onde se irá parar é das coisas que o cinema tem de melhor. Infelizmente, com trailers, teasers, críticas e marketing, antes de entrar na sala, poucos são os que não sabem o que vão ver. Desta forma, não ver trailers (demasiados), não criar demasiadas expetativas e ter sorte na escolha dos filmes, é a formula secreta para a felicidade cinematográfica.
Em Henri, a ideia de felicidade vive num paradoxo. Henri (Pippo Delbono) começa por perder a mulher, por ficar sozinho à frente do seu restaurante e por se afastar da filha. Isto seria o suficiente para estarmos perante um drama de fazer chorar as pedras da calçada. No entanto, o que mais se vai sentindo ao longo do filme é uma estranha alegria desconfortável. Para isso, muito contribui a “borboleta” (nome dado aqui às pessoas com défices cognitivos) Rosette, interpretada brilhantemente por Miss Ming. Ela começa por surgir na vida de Henri para o ajudar no restaurante. Estranhamente, ou não, eles desenvolvem um laço que durante todo o filme não se sabe onde vai dar.
Se inicialmente o mais óbvio seria explorar a relação (ausente) que Henri mantinha com a filha, com o passar do tempo, a díade Henry-Rosette tornou-se o objecto mais interessante de escrutinar. Todavia, a aparição da mulher e da filha é meramente formal e poderia ter sido melhor explorada. Não se percebendo ao certo, como é que ele se tornou alguém tão apático.
O que acaba por agarrar as pessoas ao filme é o realismo das interpretações dos protagonistas e a química entre eles. Subtilezas nos planos e nas palavras permitem-nos sorrisos, isto no meio de duas personagens, que por razões diferentes, partem da mesma tristeza.
A fotografia (de Philippe Gilbert) é outro ponto forte da obra. Isso, aliado à excelência e originalidade nos planos de Yolande Moreau emprestam a esta produção francesa uma espécie de “alegre tristeza”, acabando por ser sempre uma mistura de sentimentos agridoces que nos envolvem.
O Melhor: A realização e a dupla de protagonistas
O pior: Não se terem desenvolvido outras personagens (e.g. a filha dele), que apenas serviram como adereços.

Nuno Miguel Pereira

