«Rei Inútil», «Entrecampos», «Gambozinos», «Na Escola» por Nuno Miguel Pereira

(Fotos: Divulgação)

Muitas vezes esquecemos tudo o que não seja uma longa metragem. Porém, a culpa não pode ser toda incutida no público. A verdade é que, com ténues exceções, curtas-metragens não passam no grande ecrã em termos de circuito comercial. As poucas tentativas que existiram muitas vezes falham por colocar uma curta antes de uma longa, sem que tenham em atenção o público alvo de ambas. Perde-se assim uma oportunidade de divulgação da curta, prejudicando-a, mais do que beneficiando.

Desta forma, uma sessão somente de curtas será o que melhor poderá resultar. Pena não existirem mais salas dispostas a receber este género de sessões.

Neste caso, a sessão englobou 4 curtas da produtora O Som e a Fúria. Embora qualitativamente diferentes, prometem não aborrecer ninguém. São elas: Rei Inútil, Entrecampos, Gambozinos e Na Escola.

Em Rei Inútil (de Telmo Churro) acompanhamos Tiago, um rapaz do 12º ano, com muitas particularidades, entre as quais falar com Deus (e ele responde) e ter como explicador de história D. Sancho II. Esta primeira curta foca-se na vida deste jovem, procurando desenvolver a personagem, sem descurar da história. A narrativa é, alias, bastante inventiva e encontra-se muita qualidade no argumento.

Entrecampos (de João Rosas) é a segunda proposta da sessão. O título tem mais que ver com o sítio onde Mariana (a protagonista de 11 anos) mora. Ao contrário de Rei Inútil, onde a história é boa, mas o acting é discutível, aqui a protagonista é competente, mas a história é insossa e não vai ter a lado nenhum. Fala de Mariana e do seu pai, vindos recentemente de Serpa,  a tentarem-se adaptar ao destino paradisíaco que é Entrecampos. Mariana tem a particularidade de se perder sempre, indo parar primeiro a Chelas e depois a Carnide. Para além disso, as filmagens mostram um lado menos interessante de Lisboa (o Continente é focado, pelo menos, 3 vezes).

Com a penúltima curta foi caso para dizer, “à terceira foi de vez“. Em Gambozinos (de João Nicolau) acompanhamos um campo de férias onde convivem rapazes e raparigas de diversas idades, sendo que as partidas entre eles são constantes.

Gambozinos

O que torna esta curta tão boa é a história e o pequeno protagonista, que vive amargurado por um amor fulminante. Para além disso, ele é um amante da natureza, com o seu “amigo gigante” (que mais parece o Renato, do programa do Aleixo). Porém, a melhor parte chega no fim com o rap de amor intitulado “Antónia Josefina“, um verdadeiro hino ao (hu)amor. Essa canção irá perdurar na memória (e mp3) de quem a ouvir.

Por último, Na Escola (de Jorge Cramez). Aqui, vemos retratada a (curta) odisseia de um grupo de amigos da escola. A narrativa desenrola-se maioritariamente na floresta, repleta de insetos e repteis. A verdade é que todo o filme parece um episódio do BBC Vida Selvagem, mas sem  voz off. Não é portanto a obra mais inventiva e interessante das quatro. Todavia, há que dar mérito à agradabilidade visual que transmite.

Em suma, esta sessão representa um progresso. Fora dos festivais, ainda são poucas as situações onde se pode ver somente curtas e todas de uma vez. Assim, é sempre de louvar quando propostas destas surgem nas salas de cinema. As curtas presentes têm todas alguma qualidade e garantidamente, gostando mais ou menos de uma, as outras irão compensar.

O melhor: Gambozinos
O pior: Na escola (naquela escola toda a gente deve chumbar)


Nuno Miguel Pereira

 

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