Fugir ao cinema mais mainstream é sempre um exercício de ginástica intelectual e física (porque estes, vão sempre para ínfimas salas espalhadas por sítios muito específicos). Por outro lado, o facto de não ser uma produção comercial americana, não significa que seja bom, mas será pelo menos… diferente.
O Último Elvis é um desses casos, daqueles com qualidade. Apelativo, fácil de ver e que consegue ir para além da superficialidade. Nesta produção argentina, acompanhamos Carlos Gutiérrez (John McInerny), alguém que, mais que um admirador, acha que incorporou nele a voz e a alma de Elvis, deixando mesmo o seu nome de lado e só gostando de ser tratado por Elvis.
Com esta obsessão, Carlos “Elvis” foi se alienando na sua vida, falhando no seu casamento com Alejandra (a bela Griselda Siciliani) e estando longe de ser um bom pai. A sua fixação leva-o a tentar viver exatamente como Elvis, chegando ao ponto de chamar a sua filha de Lisa Marie. Para além disso, ainda incorporou o peso do rei (à base de quantidades massivas de pão). No geral, Carlos seria o melhor parceiro para um trivial pursuit sobre o Rei do Rock.
Não obstante, O Último Elvis está muito longe de ser somente um filme que fala sobre uma obsessão. Aliás, é quando Carlos deixa o seu alter-ego e se foca na relação com a sua filha, que a obra ganha uma dimensão mais profunda e emocional.
Outra nota relevante é a dicção e os maneirismos que John McInerny conseguiu trazer para a sua personagem. A banda sonora (cantada inteiramente por John) muitas vezes irá fazer-nos duvidar se é ele ou Elvis, quem está a cantar.
No final, O Último Elvis, assinado pelo estreante Amando Bo, acaba por ser uma obra sobre uma alma atormentada. Alguém que arranjou um escape à sua vida mundana, criando um alter-ego para lhe dar sentido à sua existência. Um ensaio sobre um homem que queria ser maior do que aquilo que lhe foi destinado.
O melhor: A interpretação de Carlos Gutiérrez e as cenas em que ele não é Elvis.
O pior: O final é algo previsível. A personagem Carlos e o seu ciclo relacional deveriam ter sido melhor explorados.

Nuno Miguel Pereira

