Nos dias que correm, a maioria dos filmes que passam no cinema dividem-se em três categorias: Os maus, os muito maus e os decentes. Muitas vezes existem exceções à regra, como quando aparecem os “maus de mais para ser verdade“. No momento em que algo foge a estas categorias, é de pasmar.
Como um trovão (“tradução” algo tola para “The Place Beyond the Pines“) tenta fugir a todas as convenções. Na história deparamos-nos com Luke (Ryan Gosling), um homem sem rumo que para sustentar o seu filho, nascido de uma relação de uma noite com Romina (Eva Mendes), assalta bancos. Depois temos Avery (Bradley Cooper), um polícia com um ano de serviço que se vê confrontado com uma situação que irá mudar a sua vida de forma definitiva.
O filme vai muito para além do que a sua premissa indica e nunca, em momento algum, é possível adivinhar o seu rumo.
Na primeira metade a interpretação “cool” de Ryan Gosling dar-nos-à uma vontade imensa de usar t-shirts esburacadas e do avesso. Quanto a Bradley Cooper, tem uma prestação fora do seu role habitual de papéis, desempenhando um homem que vive com a culpa pelo que fez no seu passado. Vemos uma personagem amargurada e não sabemos o que sentir em relação a ele.
Todavia, o que acaba por tornar este filme pouco convencional é o facto das personagens serem simultaneamente os bons e os maus da fita. Temos a oportunidade de ver esta dicotomia em cada papel e dificilmente haverá favoritos (com exceção do público feminino, ao ver o Ryan Gosling sem t-shirt).
O ritmo desta obra leva-nos numa viagem, oscilando de acordo com a personalidade de cada personagem. Temos a quinta velocidade de Gosling, vivendo e agindo de forma rápida e irrefletida. Por outro lado, Cooper anda com a 1ª mudança engatada grande parte do filme, havendo uma transformação lenta da sua personagem, mais ponderada e cerebral. Nesse sentido, existe grande mérito na realização de Derek Cianfrance (do também excelente Blue Valentine), conseguindo-nos agarrar durante as cerca de duas horas no filme. A verdade é que poderia durar quatro horas e ninguém ia dar por isso, tal é o perfeito encadeamento da narrativa, sem pontos mortos.
Outro ponto forte do filme é a fotografia. Sean Bobitt consegue captar de forma crua todos os cenários, provando que é a simplicidade dos ambientes que os torna tão atrativos visualmente.
Por fim, a banda sonora acompanha sempre de forma natural as cenas que iam decorrendo, nunca forçando sentimentos no espectador. A cena final, com uma belíssima música de Bon Iver, vai fazer qualquer pessoa ficar para ver os créditos, refletindo calmamente no que acabou de ver.
Por tudo isto, Como um trovão é um filme que nos fará pensar sobre a vida, provocará emoções e deixará aquela sensação de querer ver sempre um pouco mais. Não é um feel good movie, nem pretende ser. Apresenta um rumo tão incerto, como aquele que qualquer pessoa encontrará fora da sala de cinema.
O melhor: A história, as interpretações, a banda sonora, a fotografia e a realização. Um filme que deixará marca em qualquer um.
O pior: Nada a apontar

Nuno Miguel Pereira

