«August: Osage County» por Paulo Portugal

(Fotos: Divulgação)

Era um dos filmes mais aguardados em Toronto e um veículo assinalado para Meryl Streep chegar à sua 18ª nomeação ao Óscar, na adaptação da peça de Tracy Letts, vencedora de um Pulitzer. O resultado é que nem todos os críticos subscreveram o mesmo aplauso a esta história de uma família disfuncional que regressa a Oklahoma em virtude da morte do patriarca local, o escritor Beverly, que nos permitiu com uma sequência inicial do talento de Sam Shepard. A proximidade de Meryl ao Óscar justifica-se ao assinar um dos seus papéis mais arrojados. Muito teatral, é certo, e partilhado com Julia Roberts, num bom regresso ao ativo e num filme que inclui ainda nos elenco nomes como Juliette Lewis, Ewan McGregor, Dermot Mulroney, Benedict Cumberbatch, Abigail Breslin e Julianne Nicholson.

Como a matriarcal Violet Weston, Meryl tem uma entrada dramática, de cabeça rapada, em virtude de um cancro na boca, voz entaramelada devido aos comprimidos que toma como se fossem smarties, e cigarro na mão. Após uma breve conversa com o marido fica definido o tom carregado que irá marcar estas duas horas e dez minutos de fita. Uma fita teatral quase toda passada dentro de uma casa, permitindo assim aos atores um apuramento na representação. Seguramente, o oposto dos filmes de efeitos especiais de hoje. É que aqui o efeito especial é o arrojo dramático.

No momento em que Meryl coloca a peruca negra para o funeral é que nos lembramos de como esta prestação parece quase uma homenagem a Elizabeth Taylor, referida até no filme pela personagem, numa história assolapada e delirante que passa perto do ritmo e narrativa de Quem Tem Medo de Virginia Woolf, a fita de Mike Nichols, de 1966.

É nesse Agosto escaldante que a família se reúne na casa de Osage para enterrar o velhote. Num estilo sempre teatral em que John Wells acaba por gerir com eficácia, em particular na longa sequência de um almoço em que todos os presentes serão analisados e descarnados de forma voraz. Complexa é essa cena, filmada em tempo real, como se de verdadeiro teatro se tratasse. E verdadeiro teatro é, com as suas emoções maiores que a vida, chegando mesmo a um confronto físico entre filha e mãe, ou Julia e Meryl, que adquire um imediato estatuto clássico.

O filme é complexo, quase em demasia, na sua vontade em servir o texto original, mas tem aquela característica de majestosas representações no que parece ser um verdadeiro ‘crowd pleaser’ pleno de revelações. Com a estreia americana marcada para o dia de Natal, estamos certos de que deixará o seu nome (ou nomes) na lista dos próximos candidatos a Óscar.

E, ao que parece, aqui entra a mão do estratega Harvey Weinstein, o patrão da Miramax, produtor do filme, a ‘promover’ Julia para a nomeação ao Óscar de interpretação principal, ‘despromovendo’ Meryl para secundaria. Ganharia assim com a candidatura de Julia, mesmo que venha a falhar, mas talvez garantindo que só dificilmente escaparia a Meryl a nomeação secundária. E, possivelmente até, a conquista de mais um Óscar.

O melhor: Meryl Streep de cabeleira negra e cigarro na mão na fulgurante sequência do almoço de todos os dramas

O pior: O lado excessivamente teatral do filme rouba em realismo aquilo que lhe dá em dramatismo.


Paulo Portugal

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