MOTELx: «V/H/S 2» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

 

Um dos maiores problemas das antologias de terror (V/H/S, Theater Bizarre, ABC’s of Death) é o facto dos seus segmentos estarem forçados a desenvolverem a narrativa a todo o gás, sem grandes preparações das personagens, ambientes e com pouca atenção ao detalhe. A esse problema, acrescenta-se outro nesta segunda incursão cinematográfica de V/H/S. A ditadura do found footage torna-o um objeto extremamente limitado, muitas vezes confuso, e apenas eficaz na questão dos sustos porque [e nada tem a ver com a imagem] o trabalho sonoro é redobrado nos momentos de climax. Se nos alhearmos de tudo isto, e se até não gostarmos muito desse formato, existe uma vantagem. Quer V/H/S, quer V/H/S 2 servem para mostrar que esta técnica, quase de guerrilha do cinema independente [entretanto sequestrada pelo cinema comercial], não é efetivamente a melhor para contar determinadas histórias, pelo menos de uma forma completamente eficaz.

Neste V/H/S 2 temos dois investigadores particulares – Larry e Ayesha – que tentam encontrar um jovem desaparecido. É no apartamento deste que descobrem uma série de TVs, várias videocassetes e um computador com um vídeo nele. Enquanto Larry investiga o que há pela casa, Ayesha entretém-se a ver as cassetes VHS espalhadas pela sala.

A partir daqui começamos a ver os segmentos individuais que compõem esta antologia. O primeiro, Phase I Clinical Trials, de Adam Wingard, parece que vai buscar inspiração à obra [já clássica] dos irmãos Pang, The Eye. Aqui, em vez de termos uma jovem cega que após uma cirurgia começa a ver estranhas criaturas/sombras que anunciam a morte, temos um homem que após um acidente de viação coloca um implante ocular pioneiro que grava tudo o que ele vê. O problema é que ele começa a ver demais, assustando-se frequentemente com estranhas presenças de espíritos e fantasmas que vagueiam pela sua casa sem razão aparente. A ausência do «por que andam fantasmas pela minha casa?» não é importante em filmes onde o intuito é apenas entreter, ou assustar de forma primária. Porém, se introduzimos uma personagem[que trabalha para a empresa que criou o implante ocular] no meio da história a tentar explicar o inexplicável, então ao menos que a explicação seja satisfatória [ou que a presença da personagem seja relevante]. Isso não acontece e Phase I Clinical Trials acaba por ser um dos elos mais fracos desta antologia, apenas à frente A Ride in the Park, o segmento realizado por Eduardo Sánchez [um dos realizadores de O Projeto Blair Witch] e Gregg Hale. Neste, com um ligeiro tom humorista, seguimos um homem que pedala com a sua bicicleta num trilho de um parque quando é atacado por zombies. A partir daqui começa uma carnificina, sempre seguida na primeira pessoa por uma câmara GoPro que o ciclista leva na cabeça, acompanhando o espectador os eventos sem direito a qualquer susto, mas a muitos lugares comuns no que toca ao cinema com mortos vivos, onde só o final [pouco racional] se distingue dos demais.

Só à terceira cassete, e já com alguns desenvolvimentos na história dos dois investigadores que as visionam [que funcionam eles mesmo como um segmento, intitulado Tape 49], é que finalmente somos brindados com uma história mais criativa. Em Safe Haven, de Gareth Huw Evans e Timo Tjahjanto, acompanhamos uma equipa de reportagem que tenta investigar um estranho culto algures na Indonésia. É neste «capítulo» que somos também presenteados com a melhor utilização do formato e, sem sombra de dúvidas, a melhor realização e história deste VHS2 [com muitas sequências até semelhantes às que Evans usou em The Raid]. Com doses certas de misticismo, terror, gore, alguma ação, mas também um lado mais pessoal ou melodramático das personagens, Safe Heaven até merecia uma longa-metragem só sua.

Finalmente, a quarta videocassete/segmento Slumber Party Alien Abduction, de Jason Eisener, acompanha uma aparente invasão e tentativa de abdução por parte de extraterrestres a um grupo de jovens que pernoita numa casa à beira de um lago. Capaz de produzir bons sustos, muito por culpa da abusiva imposição do trabalho sonoro, este acaba por ser um capitulo satisfatório e que a par de Safe Heaven eleva V/H/S 2 a um nível até superior ao do primeiro filme da franquia, estreado em 2012.

Ainda assim, a dependência de um formato limitado e o natural pára/arranca das situações de clímax e sustos motivadas pelo tira/mete cassete, serão sempre um entrave para esta saga, ainda que não perturbem o seu estado de puro entretenimento escapista para quem gosta de sustos, ação e sangue…muito sangue.

O Melhor: o segmento Safe House
O Pior: o segmento A Ride in the Park, bem como a história dos investigadores que liga todas


Jorge Pereira

Últimas