Até onde estamos dispostos a ir para conseguir dinheiro é uma temática muito abordada no cinema, especialmente nos filmes que envolvem golpes e onde a passagem da necessidade à ganância leva na maioria das vezes a traições, para já nem falar num verdadeiro retorno ao estado primitivo do homem, num verdadeiro salve-se quem poder.
Pegando, esticando e torcendo a permissa de filmes como Proposta Indecente, E.L Katz cria uma comédia negra que muitas vezes pisa a linha da transgressividade, ainda que se mantenha sempre consciente das suas necessidades comerciais no mercado, e por isso atenue o tom negro com humor.
No filme seguimos Craig (Pat Healy), um homem com sérios problemas na vida. A esposa abandonou o emprego para tratar do filho recém-nascido. Ambos devem vários meses de renda. Para piorar, a nova ordem económica leva a que Craig seja despedido. As mágoas e agruras da sua vida são afogadas num bar, local onde vai acabar por reencontrar um antigo colega de liceu (Ethan Embry).
Entre conversa de circunstância e pontos da situação da vida, ambos são abordados por um casal que os convida a beberem em conjunto. Com a bebida surgem pequenas apostas e aos poucos o bizarro casal endinheirado parece ser a solução para os problemas económicos de ambos. Porém, estarão eles preparados para o acréscimo das dificuldades, dos valores das apostas e das situações que terão de executar para receberem mais e mais dinheiro?
A transformação do casal de um elemento de salvação para uma verdadeira perdição dos dois «amigos» é um dos elementos mais fortes deste pequeno e limitado filme, especialmente derivado a duas boas, muitas vezes hilariantes e sedutoras, prestações de David Koechner e Sara Paxton.
O duo funciona como a serpente que corrompe o homem, pegando e mostrando o dinheiro como a forma máxima da corrupção moral da sociedade atual. Nisto, e instigados por este duo memorável, Pat Healy e Ethan Embry revelam-se dois peões sólidos prontos para a sua transformação moral e descida ao infernos, capazes a certa altura de fazer tudo (ou quase tudo) para atingira, ao seu jeito, o velho sonho americano: o de qualquer pessoa enriquecer e triunfar a partir do nada.
Com cenas difíceis de assistir, quer graficamente, quer em termos de sugestão [que atormentarão alguns estômagos], Cheap Thrills não passa daquilo que o seu nome significa, mas ainda assim revela-se um dos filmes mais bem conseguidos do género na difícil tarefa de entreter um publico em geral e conquistar o nicho de fãs de cinema de horror que vivem sedentos de sangue, violência e até sexo. Que venham as apostas…
O Melhor: Katz, mesmo quando estica os eventos para situações complicadas de digerir, apresenta tudo num tom ácido mas repleto de humor [negro]
O Pior: Tem naturalemente as suas limitações

Jorge Pereira

