«Kon-Tiki» (Kon-Tiki – A Viagem Impossível) por Nuno Miguel Pereira

(Fotos: Divulgação)

Fugir à dimensão comercial de Hollywood nem sempre é fácil. Esta indústria está de tal forma enraizada na nossa cultura, que tudo o que acontece fora dessa esfera é olhado com desconfiança. O espectador comum vai ver um filme porque conhece um ator, ou um realizador e na dúvida, a maioria irá escolher um filme falado em Inglês (sem sotaque Português). Assim o cinema europeu para ter sucesso em Portugal terá que primeiro apresentar resultados (uma série de prémios e uma excelente máquina de marketing), ou então ter uma base de culto em torno do autor. De outra forma, bons filmes passam em claro, enquanto filmes da terra do tio Sam vão ocupando espaço.

Kon-Tiki é um filme europeu (norueguês) que se fosse americano e tivesse o George Clooney como protagonista, seria um sucesso a todos os níveis. Porém, em vez de Clooneys, temos atores noruegueses e isso imediatamente atrasa a estreia e se ressente na bilheteira.

A história (verídica) gira em torno do arqueólogo explorador Thor (Pål Sverre Hagen ), este com outro tipo de superpoderes. Thor criou e apresentou uma teoria que, para altura (década de 30 e 40), punha em causa algumas premissas. Na sua teoria, a Polinésia Francesa tinha sido colonizada por povos da América do Sul e não por asiáticos. Para essa viagem (há 1500 anos atrás) os indígenas teriam utilizado jangadas, transportadas através das correntes mais ou menos certas do oceano pacífico. Ora, na altura a sua ideia exigia provas. Nessa situação, Thor juntou uma tripulação de noruegueses loiros e sem pelos no peito, construiu uma jangada e procurou chegar à Polinésia, replicando as mesmas condições dos indígenas. Para fazer jus a este grande marco histórico, o filme tinha de fazer esquecer o facto de já sabermos a história à priori. Por outro lado, a coragem demonstrada por todos estes homens teria de transparecer nos personagens. Felizmente, isso acabou por suceder.

Conhecendo ou não conhecendo a história, o filme agarra-nos e faz-nos balançar tanto como aquela jangada. Estamos sempre na expetativa que aconteça algo de muito mau, porque as adversidades parecem estar sempre à espreita, especialmente tendo em conta uma tripulação de noruegueses certamente não habituada a situações de calor e insolação extrema.

Essa permanente expetativa e suspense que a ação gera, deve-se em boa parte à realização de Joachim Rønning e Espen Sandberg. São eles que nos transportam para dentro da ação e quase nos fazem sentir “o cheiro” da água.

Kon-Tiki (nome da jangada em homenagem ao deus do sol Inca) ganha ainda pelas interpretações muito competentes. Apesar de tanta cabeleira loura com barba de 90 dias, é fácil distinguir cada personagem. Cada uma tem uma luta diferente, uma personalidade e o sucesso da missão deve-se a cada um dos participantes.

O único percalço desta viagem é mesmo a banda sonora. A necessidade de aumentar a intensidade das cenas, utilizando uma musica cliché para dizer “esta cena é repleta de dramatismo”, é escusada. Afinal de contas estamos a falar de um bando de noruegueses em cima de uns paus, rodeados de tubarões. Esta é a indicação que se precisa, para imediatamente entender-se que aqueles rapazes vão ter problemas.

Por tudo isto Kon-Tiki é um filme que vale a pena ver. Todavia, vale sempre ter em conta que esta é mais uma história típica de superação humana, cheia de floreados. Nesse aspeto, não foge muito aos clichés do género.

O melhor: A realização e as interpretações seguras.
O pior: A banda sonora e o facto de não fugir muito ao género de filmes baseados em histórias verídicas de superação.


Nuno Miguel Pereira

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