Tornar um filme que divide a crítica em relevante, nem sempre é fácil. Muitas vezes as críticas tornam-se injustas, quando um filme foge aos padrões Hollywoodescos. Algo que seja demasiado politicamente incorrecto e procure chocar, dificilmente conseguirá consenso. O primeiro Kick-ass, por fugir tanto a uma norma, gerou ódios e paixões. Fazer uma sequela de uma obra assim, pode ser pernicioso. O perigo depende se o objetivo do filme é lucrar simplesmente ou procurar continuar algo que ficou por contar. Kick-ass 2 procura ser tão ultrajante e politicamente incorrecto (no bom sentido) como o primeiro, mas o facto de já não ser novidade, prejudica.
Neste novo capitulo, três histórias desenvolvem-se em paralelo. Dave “Kick-ass” Lizewski (Aaron Taylor-Johnson) cria um bando de vigilantes, mascarados de super-heróis, que procuram fazer justiça contra todos os bandidos, bandalhos e afiliados desta vida. Nas suas fileiras encontram-se nomes como o de Coronel Stars and Stripes (basicamente 5/7 minutos de Jim Carrey) e Dr. Gravity (Donald Faison).
Paralelamente, Chris D´Amico (Christopher Mintz-Plasse) cria um novo alter-ego, passando de Red Mist para Mother Fucker. Não sendo suficientemente forte a solo, junta uma espécie de Soldados da Fortuna do mal, com o objetivo de matar Kick-ass.
Quanto a Mindy (Chloe Grace Moretz, que agora já tem idade para ver o seu próprio filme), “reforma-se”, tornando-se uma adolescente (quase) normal. Aqui temos mais Mindy que Hit-Girl. No entanto, os momentos em que temos de Hit-Girl são os melhores.
Em relação ao tom, é observável que procura seguir os passos do seu antecessor. Politicamente incorrecto, alguma violência gratuita e muito gráfica, e uma ou outra cena de gosto questionável. A verdade é que o filme, apesar de qualitativamente inferior ao primeiro, acaba por resultar. Jeff Wadlow segue as pegadas de Matthew Vaughn (que aqui apenas produz) e conta uma história repleta de momentos engraçados, muita adrenalina e cenas de ação de fazer corar Chuck Norris.
Por outro lado, o facto de aqui desenvolverem tanto a personagem da Menina Moretz, indica que um filme a solo da Hit-Girl poderá estar a ser equacionado e, diga-se, ainda bem.
A banda sonora continua com uma grande qualidade, acompanhando na perfeição todas as cenas de acção.
A desilusão recai para Jim Carrey, que face a tanto hype, acaba por ter uma participação pequeníssima, sendo que pelo menos não fez as suas habituais caretas. Desempenho curto, mas limpo.
Não se pense que este é apenas um filme de ação, vazio de mensagem e com “porrada” gratuita. Há uma mensagem, mais ou menos explicita, que demonstra que o facto de vivermos “virtualmente” com tweets, facebook, myspace, iphone, nos alheia da realidade. Não há noção das consequências dos nossos atos e esquecemos-nos que na vida real existem consequências para os nossos atos.
Após o parágrafo piroso/sapiente anterior, cabe agora dizer que as cenas de violência são um regalo para os olhos para quem gosta. No entanto, não se pense que por isso, alguém vai sair da sala de cinema a imitar o que viu, pois não são este tipo de filmes que fomentam a violência. Isto é apenas uma experiência sensorial que nos alheará da realidade por um par de horas, enquanto lá fora existe uma série de coisas que nos alheia por muito mais tempo.

Nuno Miguel Pereira

