“Malhar” no cinema nacional é algo fácil, apelativo e muito português. Mesmo antes de ver os filmes que se fazem por cá, ouve-se sempre um “ah, eu não vejo cinema português, não vale a pena“. Se muitas vezes se critica com razão, outras tantas peca-se por descontextualizar. Há que perceber que ser ambicioso com poucos meios é muito complicado. O cinema de autor acaba muitas vezes por ser a única saída, pois para uma vertente mais comercial, normalmente há a necessidade de mais verbas. RPG é uma tentativa de ocupar um espaço no mercado nacional que não existe. É comercial e de ficção científica, é futurista e tenta pegar nos sucessos recentes deste género de filmes, no mercado internacional.
A premissa é simples. Um grupo de individualidades, muito ricas, procuram a juventude novamente. Para isso recorrem à empresa RPG (Real Playing Game), escolhendo cada um, um corpo a que “emprestará” o seu cérebro por umas horas. Depois, esses corpos são colocados num local inóspito e no passado (Portugal em ruínas em 2013) e o jogo começa. O objetivo é que os jogadores matem todos os outros, até que um se sagre vencedor. O prémio é ficar com aquele corpo de forma definitiva.
Este género de enredo já foi explorado por diversas vezes, o caso mais conhecido e recente é o de Jogos da Fome. No entanto, em Portugal, é novo e fresco e por isso, de louvar esta tentativa de trazer esta distopia comercial.
Porém, se a ideia é boa, a concepção falha em quase toda a linha. O facto de o filme ser falado em Inglês, apenas favorece os nativos, sendo esses os atores que se destacaram. Os outros acabaram por se evidenciar pelo facto de estarem a forçar um Inglês que não lhes era natural, procurando a melhor dicção e correcção gramatical, perdendo em qualidade enquanto atores. Debora Monteiro, por exemplo, tem um inglês com um sotaque nortenho, a roçar o incompreensível. Pedro Granger preocupa-se tanto com a dicção, que tudo o que faz sai forçado. Estes dois contrastam com a experiência de Rutger Hauer, que tem uma interpretação segura, num papel que não exigia muito. Quem acaba por ter os melhores desempenhos são Cian Barry e Cloudia Swann, que juntam o seu inatismo para o inglês a dois dos personagens mais ricos da obra.
A realização a cabo de David Rebordão e Tino Navarro é cheia de boas intenções e conseguem contar a história a um ritmo que garantidamente não fará ninguém adormecer. Por outro lado, o excessivo uso de close-ups em todas as cenas e os solavancos que a câmara vai dando, quando acompanha os personagens, cria a sensação de desconforto em quem está a ver, sendo esteticamente desagradável. Em relação às cenas de morte (ups, spoiler), fazem-me lembrar aquelas situações algo ridículas dos filmes de terror (do género “Final Destination”), onde qualquer espirro mais forte pode matar.
Quando acaba o filme somos presenteados com uma música do género “Skyfall” da Adele, mas cantada pela Adele “Tuga”; a Aurea. Boa música, diga-se.
Assim, e no todo, ficamos com as boas intenções e a ideia que um homem em circunstâncias extremas age de forma agressiva. Ao estilo do princípio de morte de Freud, onde o ser humano livre de regras age sobre impulsos sexuais e de violência. Notou-se a tentativa de dar alguma substância à comercialidade do filme, mas o que falhou mesmo foram alguns “pormaiores” da concepção, revelando que ainda temos muitos quilómetros para galgar. Veremos o que o futuro nos traz.

Nuno Miguel Pereira

