Há filmes que nos deixam uma sensação estranha, de opinião incompleta. E claro que é o caso deste quinto filme do realizador francês na seleção de Cannes. A história verídica do índio Blackfoot Jimmy Picard (Benicio del Toro) que combateu na 2ª Guerra Mundial pela França e que acaba por ser internado num hospital militar do Kansas para receber apoio psiquiátrico.
Após um diagnóstico prévio de esquizofrenia entra em cena George Devereaux (Mathieu Almaric), um psicanalista francês especializado em cultura nativa americana. O filme assenta então neste diálogo entre os dois homens de culturas e passados diferentes. E não é sequer pelo lado de filme psicológico que Jimmy P. perde algum do seu fulgor. Até porque, diga-se, Despleschin pinta as paisagens locais com uma fotografia rica que serve para alternar estes longos diálogos, momentos de delírio e sonho do paciente, bem como da atribulada vida do médico.
O problema é que o rigor e elevação destas conversas muitos bem escritas, acaba por tolher a credibilidade das personagens. Por outro lado, sem nada que afete a prestação de Benicio, temos de concordar que um ator mais novo e de fisionomia mais marcadamente nativa defenderia melhor a personagem. Por fim, sente-se que a personagem de Gina McKee, namorada britânica de Devereaux, surge no filme apenas para atenuar a cadência desses diálogos alinhavados com a constante e pachorrenta banda sonora de Howard Shore. No entanto, depressa se percebe que essas cenas fugazes não só nada acrescentam como sublinham essa incongruência. Parece que passamos ao lado do filme que poderia, e deveria, ser.

Paulo Portugal

